|
Off-Road peso pesado
No
final de 99, Minas Off-Road publicou, em sua seção
Jipe do Mês, uma matéria sobre o curioso "Dino",
um extraordinário caminhão off-road derivado
de um modelo P-400, da Dodge, fabricado na década de
70. Todas as informações sobre o veículo,
publicadas na matéria, foram obtidas através
de entrevista com seu segundo e atual proprietário,
Sr. Pedro Barroso.
Recentemente, chegou à nossa redação
correspondência do Sr. Georges Paturle, o idealizador
e construtor do "Dino", tecendo alguns comentários
sobre a matéria e corrigindo algumas informações
publicadas com erro. Diante da riqueza das informações
fornecidas pelo "Pai da Criança", como o
próprio Sr. Paturle se caracteriza em uma passagem
de seu texto, resolvemos publicar esta carta na íntegra,
para que nossos leitores possam ter acesso a infirmações
mais exatas sobre o exótico veículo, que tanta
admiração desperta nos amantes do fora-de-estrada.
Com vocês, Georges Paturle:
"...cumpre-me fazer alguns esclarecimentos a respeito
da matéria sobre o "Dino", porquanto existem
inverdades, talvez por falta de informação,
uma vez que o veículo não foi feito sob encomenda,
pois impossível a mim encomendar qualquer coisa a mim
mesmo:
1 - O Pedro Barroso e eu somos amigos desde os tempos de nossa
adolescência, porém ele não teve qualquer
participação seja no projeto e, muito menos,
na construção do "Dino", e só
veio a conhecê-lo algum tempo depois de pronto, e mesmo
assim, depois de que eu já havia realizado algumas
viagens de pescarias pelo interior do Mato Grosso (norte),
Pará e Amazonas.
2 - A carroceria não foi feita na Decandia. Eu realmente
contratei os serviços daquela empresa, com todo o projeto
da carroceria de minha autoria. No entanto, pouco tempo depois
de enviado o chassis do P-400 (adquirido 0 km, na antiga Emercan),
a Decandia faliu e tudo o que estava em seus galpões
(inclusive meu chassis, já com a cabine sem teto e
sem portas e totalmente recortada) foi arrolado pela Justiça
como bens de massa falida. Em julho de 1979, consegui retirar
meu chassis (até as placas haviam sumido), no estado
em que se encontrava, através de processo judicial
de habilitação à falência, e removê-lo,
com autorização policial, para um galpão
em Guarulhos, pertencente a uma indústria, à
época, de propriedade de meu pai. Contatei e contratei
três funileiros que haviam perdido o emprego com a falência
da Decandia e, juntamente com três outros funcionários
nossos e nosso ferramental, em 15 dias, fizemos a carroceria
e pude trazer o furgão para Belo Horizonte.
3 - O "Dino", em nenhuma das etapas de construção,
esteve na Engesa. À época, eu tinha bons amigos
naquela empresa e estava acompanhando e ajudando no projeto
de construção do canhão de 105 mm, de
mira por sistema infra-vermelho, para equipar o "Cascavel".
Foi através dos amigos que consegui retirar da linha
de montagem e adquirir a preço de custo um eixo dianteiro
completo do veículo militar EE-25 (a nomenclatura EE-23...
nunca existiu). O sistema de roda-livre é AVM manual,
(usado na época em caminhões Ford e GM de médio
porte, nos EUA) e tive que fazer as necessárias modificações
nas pontas do eixo para sua adaptação. Diga-se
de passagem, também ajudei no projeto do bloqueio total
do diferencial do sistema "bumerangue" da Engesa,
bem como palpitei em diversos outros.
4 - O motor Perkins 6-354, de fabricação inglesa,
naquele tempo equipava o tanque inglês "Phanter"
e foi importado da Inglaterra pela Chrysler argentina e reexportado
para a subsidiária brasileira, especialmente para mim,
com a rotação especialmente regulada, a meu
pedido, para 3300 RPM, já com o volante aliviado na
fábrica, o que faz o "Dino" chegar aos 145
km/h "no pé". A relação do
diferencial traseiro (originalmente 4,54:1) foi por mim substituída
por outra mais longa (3,90:1). Ele é intercooler, mas
a turbina foi projeto à parte (desenvolvi a partir
do sistema do MBB 1516), que envolveu inclusive modificações
e melhoramentos nos coletores e janelas.
5 - As caixas de transferência, tanto a principal como
a equalizadora de rotação para o eixo dianteiro,
foram integralmente por mim projetadas e construídas
em finais de semana, na indústria de meu pai, em Contagem.
6 - A direção não é hidráulica,
apenas possui um auxiliar hidráulico (integralmente
por mim desenvolvido) por pistão de dupla ação,
atuando no braço do setor, com válvulas direcionadoras
e equalizadoras de pressão. Naquela época, as
bombas de direção disponíveis no mercado
não eram confiáveis e eu não podia correr
o risco de ficar "no tôco" estando nos confins
da Amazônia.
7 - Toda a adaptação da tração
dianteira e substituição do motor original de
4 cilindros foram realizadas, apenas por mim, na minha oficina
particular, em minha residência. Daqui, eu já
saí para a primeira pescaria com o "Dino".
8 - Apenas para ilustrar, os freios dianteiros do "Dino"
não são originais do P-400, e sim do caminhão
maior, o P-700, com área de frenagem e eficiência
superiores, o que é altamente necessário num
veículo deste porte, puxando reboque com barco e andando
a mais de 140. O guincho, eu trouxe dos EUA, em viagem no
ano de 79.
9 - O Dinossauro não foi o primeiro veículo
deste tipo que construí. Antes dele, eu projetei, montei
e usava em minhas pescarias uma F-100 6x6 (3 diferenciais),
com o sistema de eixos trazeiros montados em feixes de molas
sobrepostos e invertidos, atuando em palalelismo homocinético,
de incrível perfomance. Rodei nesta camionete o norte
do Brasil por inteiro, por mais de 150.000 km. Além
desta F-100, projetei e construí um veículo
4x4 batizado de "Jagunço", motor V-8, chassis
retilíneo compensador de torção, carroceria
de alumínio com 5 lugares e tração integral
(naquela época, no Brasil, nem se sonhava com esta
tecnologia), que chegava aos 170 km/h.
10 - Também para ilustrar, o veículo que aparece
ao lado do Dinossauro na foto, que eu tirei, ao alto de sua
página, é um Kaiser (sub-marca de veículos
especiais da American Motors Jeep - Chrysler Corporation),
o qual foi totalmente recuperado por mim (com a adaptação
de um motor MWM D-229-4), também para uso em pescarias."
Atenciosamente,
Georges Paturle
Para ver a matéria original, clique
aqui.
|