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Um país profundo para aventureiros off-road
Por: João José Moutinho

Na Líbia quase tudo é verde. O verde é a cor oficial do país, e até o chefe supremo Muammar Al Kaddafi publicou um livro que intitulou de verde. Verdes são também os sentimentos dos líbios que pacientemente esperam o regresso do país à normalidade... Verde eram também os números da amolgada chapa de matrícula nº 6342 que tive que comprar na alfândega líbia por forma a legalizar e permitir a entrada do meu 4X4 Mitsubishi L200, depois de colocada com arames por cima da portuguesa, que ali, coitada, não servia de nada.

Uma vez chegados, as formalidades de fronteira estavam a decorrer a tão bom ritmo que nem quis acreditar que estava prestes a deixar para trás Ras Ajdir, a porta da Líbia mais utilizada para quem entra por NW. O meu imaginário desmoronou! Estava num país como tantos outros que tenho visitado por essa África fascinante... Não vi caras cerradas por detrás de armamento bélico, nem tão pouco campos de treino para terroristas, como continuam a afirmar os paladinos do "eixo-do-bem".

Já a tarde ia a meio quando me debrucei sobre o sul deste enorme país de 1.759.540 Km2, aproximadamente, vinte vezes maior que Portugal e com uma população aproximadamente cinco vezes inferior à deste.

Fim de tarde. Para olho treinado e atento a estas coisas de desertos, lia-se no ar que os ventos do sul tinham varrido a Hamada al Hamrah e dado novas formas ao Erg Awbari, consequência das baixas pressões mediterrâneas que formam nesta região espessas nuvens de areia.

Os 8000 quilômetros a transpor eram uma incógnita, embora tivessemos detalhadamente preparado todo o trajecto em "laboratório", ou seja, no estirador, tomando como cartas referenciais para levantamento das coordenadas as TPC americanas (+-400 pontos para o GPS). O objetivo imediato era dormir às portas de Ghadames, "a pérola do deserto" (assim a designavam os ex-colonizadores italianos) e fazer-lhe uma visita na manhã seguinte.

Patrimônio da Humanidade
Ghadames é, sem dúvida, a cidade antiga mais bonita de toda a Líbia, e não foi em vão que a declararam patrimônio da humanidade. Aqui os autóctones entendem-se entre si através de dialeto berbere, mas também encontramos quem se exprime em italiano. A arquitetura da cidade é verdadeiramente labiríntica e original. Toda ela foi feita com o recurso ao adobe fino, requintadamente pintado, e à madeira de palmeira. As suas ruas escuras e frescas são cobertas pelos soalhos dos primeiros andares das casas e estes, por sua vez, são seguros por troncos de palmeiras que atravessam constantemente as ruas de parede a parede e vão desembocar em belas áreas descobertas e nichadas, onde jovens e anciãos se deleitam nas horas tórridas, ouvindo o cantar das águas divinas que atravessam todo aquele emaranhado habitacional. Algumas "casas-museu" foram reconstruídas, pelo que visitando-as podemos respirar e sentir a filosofia e o "bordado" desta civilização salpicada de culturas: Romana, Vândala, Bizantina e, recentemente, Italiana.



Com a autonomia de combustível ao máximo (200 litros), deixamos o oásis de Ghadames e lançamo-nos para a ligação à cidade de Ghat, a grande porta do Akakus. Para percorrer este percurso, os nómadas, em seus camelos, precisam de aproximadamente 15 dias e de dois poços de água. No entanto, nós, graças à tecnologia, só necessitamos de três, mas são três verdadeiros dias de nada, em que os únicos vestígios de civilização são alguns bicos de fogo longínquos, que, ao entardecer, incendeiam o céu, símbolos da riqueza petrolífera existente no subsolo destas latitudes.

Perfeitamente entregues a nós próprios e à divina proteção do Grande Allah, tendo a linha de fronteira argelina sempre à nossa direita, a escassos quilômetros, o que nos faz redobrar os cuidados com a navegação ("Não vá o Diabo tecê-las" e entrarmos em território considerado de alto-risco!!!) deixamos a Tripolitânia e "enterramo-nos" nas grandes extensões arenosas que os líbios denominaram Sahra (não confundir com Sara), a ponta mais ocidental do grande Erg (vasta área de grandes dunas).

Viagem no século 19
Ao enfrentar as dificuldades inerentes a este terreno arenoso, não pude deixar de pensar em Barth, aquele que foi considerado o modelo dos exploradores que revelou à Europa os esplendores da África Central e do Sara. Durante aqueles dias, o meu imaginário transportou-me ao passado e pude imaginar Heinrich Barth surgindo no horizonte daquele imenso mar de areia, aproximando-se lentamente por entre enormes agulhas rochosas que se aguçam com o passar dos séculos, numa convulsão de lava que formou montanhas que hoje não passam de colinas. Rodeado da sua altiva escolta Tuaregue, nesses anos idos de 1850, Barth, estava na vanguarda do tempo que lhe permitiu ser o primeiro europeu a contemplar essa tela gigante, petrificada, que é o Akakus. Aqui os artistas da pré-história gravaram e pintaram centenas de deslumbrantes motivos que relatam a vida das populações sarianas no tempo em que o clima era mais temperado, e onde a vida dos caçadores e dos pastores surge com o mais fino detalhe, e desfilando aos nossos olhos os animais que viviam outrora nesta região verdejante e que chegaram quase intactos aos nossos dias.

Aqui me encontro, 140 anos depois, nesta faixa seca, situado entre o Equador e 25 graus de latitude norte, neste mar de areia onde o calor é implacável, na Líbia, no Akakus, que mais não é do que o esvanecer do Tassili n'Ajjer para ocidente, nos contrafortes do majestoso Erg Murzuk. As noites, o céu, os acampamentos, tudo aqui é inolvidável e grande, tão grande que o simples fato de acampar em grupo pode significar estar só e é nessa solitude nostálgica que me dou a pensar se cada região, cada oued (rio) , cada montanha, cada pista, cada paisagem não passa do pano de fundo, do cenário tridimensional de um palco vivo onde grandes dramas e tragédias foram eloquentemente vividos por personagens ávidas de conhecimentos e glória, imbuídos nessa força estranha que os fez ir sempre mais além, para que hoje possamos cruzar os 8.560.000 quilômetros quadrados de imensidão Sahariana com elementos topográficos milimétricos.

E importa não esquecer que há somente 150 anos, aproximadamente, a aventura da exploração do Sahara começou a ser relatada com alguma precisão científica. Até então os europeus só tinham elementos sobre as costas deste continente secreto e tão próximo de nós.

Os deslumbrantes oásis de Ubari
Depois de termos "bebido" a paz no Akakus, neste jardim de areia que acaricia com doçura as falésias escavadas por milhares de anos de erosão e onde "florescem", como sentinelas deste paraíso perdido, curiosas esculturas ocres moldadas pela corrasão, infletimos para NE e rolamos aproximadamente 400 km para o interior do país, ansiosos por nos aproximar-mos do ramla dos dawwada, mais conhecido pelo corredor dos oásis e lagos de Mandara.

Tudo quanto se possa dizer sobre este trajeto é pouco. O caminho é duro, algumas das dunas a superar são gigantescas, mas o espectáculo impressionante que nos está reservado não tem rival no resto do mundo que eu conheço. Depois de ultrapassadas as titânicas dunas, entra-se nos Gassis, corredores de areia entre dunas douradas, no coração do erg Ubari, que nos conduzirão a uma série de espetaculares lagos coroados de palmeiras, que não se acredita possam existir até que se vejam. Vão desfilando diante dos nossos incrédulos olhos: Gabr’Aun, Fezu, Mandara, etc.

A água destes paradisíacos lagos é de uma salinidade enorme, intragável, e a paisagem que eles nos proporcionam é exatamente aquela que podemos obter numa noite de sonhos onde os oásis imaginários do deserto pontificam. Por incrível que pareça, estes lagos isolados de tudo foram habitados, tendo os seus últimos residentes só abandonado o lugar em 1980. Se escavarmos a uns metros do lago podemos obter uma água satisfatória para consumo e essa é a razão pela qual, a partir do século XII, os oásis dos dawwada que significa em árabe "comedor de minhocas", se tornaram paragens obrigatórias de cada vez mais caravanas. Entretanto, os acontecimentos da década de 60 vieram alterar toda uma filosofia de vida de muitos séculos. As autoridades fazem incessantes apelos à sedentarização das populações e o eixo a Este, que ligava a Tripolitânia a Gao, com passagem pelo Fezzan, e que constituía rota obrigatória do comércio entre a África do Norte e o Sudão, não é mais do que uma mítica faceta do passado Sariano.

Uma revolução inacabada
Em finais dos anos 60, um jovem oficial líbio, Muammar al - Khadafi, que estudava em Londres, regressa à pátria e dá continuidade, no seio do exército, ao trabalho político e conspirativo anteriormente iniciado em Inglaterra. A 1 de Setembro de 1969, começou em Shebha uma insurreição que rapidamente derrubou a monarquia e o rei Ídris, transformando a Líbia pelo aproveitamento dos enormes recursos do petróleo.

O resultado foi que, em cinco anos, a Líbia deixou de ser o país mais pobre do Norte de África para alcançar o rendimento per capita mais elevado do continente. Foram abertos mais de 1.500 poços artesianos, enquanto cerca de dois milhões de hectares de deserto começaram a ser irrigados para a sua transformação em áreas férteis. Cada família passou a ter direito a 10 hectares de terra, em média, recebendo também trator, casa, alfaias agrícolas e de irrigação. Nas cidades foi criado um sistema de previdência social, assistência médica gratuita e abonos para famílias numerosas.

É evidente que um programa ambicioso como este, não poderia deixar de aglutinar o nomadismo à chamada civilização de consumo... Mas como não há bela sem senão, este período áureo de recuperação econômica do país vai sofrer diversos reveses, que vão desde a má relação do seu líder com os países vizinhos, que não vêem com bons olhos a política interna programada por Khadafi. Este mal estar, nos dias de hoje, faz parte do passado, embora se sinta, que as promessas de repartição da riqueza pela população estão a ser esquecidas...

Após termos concluído o circuito dos lagos, verdadeira paisagem lunar, dirigimo-nos para a enigmática região do Império Garamante, Garama, vizinha da atual Germa que, durante mil anos, foi o maior império que dominou esta vasta extensão de terreno, só comparável ao império Egípcio. Esta misteriosa sociedade continua ainda hoje a ser objeto de estudos, já que pouco se sabe sobre a sua origem e menos ainda sobre a sua extinção. O que resta desta capital imperial não passa de uma cidade fantasmagórica, em total ruína, mas que deixa antever, pelo enorme sistema de canais subterrâneos, a sua grandiosidade de outrora.

De regresso ao norte, esperam-nos os mais belos e espetaculares restos arqueológicos de toda a costa africana: Leptis Magna. Ainda temos tempo para percorrer a segunda maior reta do mundo - a primeira está na Austrália - e ver desfilar medinas muralhadas, brancas mesquitas, traiçoeiras línguas de areia que em alguns locais atravessam completamente a estrada, muitas viaturas amolgadas e abandonadas nos locais dos seus capotanços... Continuamos a rolar para percorrer os 1000 quilômetros que nos separam da costa mediterrânea. O calor, nesta época do ano, Abril, embora modesto, já se faz sentir dentro da viatura onde o termômetro atinge facilmente os 40º centígrados, o que torna as grandes retas monótonas, não fosse a atenção que é necessário pôr na navegação, dado que todas as informações são escritas em árabe clássico.

Dormimos em Zletane, pequena cidade ainda no interior da Líbia, mas já muito próximos do mar, no hotel mais decente que existe num raio de 500 quilômetros. O pessoal do hotel é constituido, na sua maioria, por emigrantes marroquinos e tunisinos. De uma maneira geral, é com mão de obra estrangeira, emigrada ou contratada temporariamente, que o país funciona.

Vestígios vivos de um império
Ávidos por calcorrear as calçadas romanas praticamente intactas de Leptis Magna, depois de um reconfortante pequeno almoço, dirigimo-nos para a Roma Africana do Imperador Septimus Severus. Esta feitoria de Fenícios no Norte de África, que hoje se chama Lebda, guarda no seu seio este precioso tesouro que os Romanos tiveram o engenho de construir tirando partido da sua localização, que mais parece uma varanda para o Mediterrâneo. É, como quem diz, um estratégico entreposto para escoamento das mercadorias mais esquisitas e valiosas: especiarias, ouro, escravos, marfim, etc., procedentes dos Garamantes. Aqui, em Leptis Magna, é de olhos abertos que se sonha e, por mais ignorantes que sejamos, não deixamos de sentir o peso daquelas peças com aproximadamente dois milênios que teimam em nos fazer sentir que são de um tempo em que os homens tinham tempo... A basílica dos Severos, o teatro, os luxuosos banhos de Adriano, o mercado, até as sanitas dos gladiadores estão lá.

Esta paragem, esta visita, que sem dúvida nenhuma merece o desvio, funcionou, além do mais, como antecâmara de um final de viagem na capital, Tripoli ou Tarabulos como lhe chamam os Árabes.

De repente, somos surpreendidos por uma cidade grande, incaracterística e lúgubre, para aos poucos ir descobrindo que é nas suas entranhas que estão as suas raízes. Ao longo da caminhada vão-se dissipando as dúvidas com o surgimento dos vários vestígios históricos: o Arco de Marco Aurélio, que nos recorda que toda esta costa africana está salpicada de um passado cartaginês e romano, a velha fortaleza espanhola, legado da mais célebre das ordens religiosas e militares, a Ordem de Malta, os embutidos deixados pelo sultão turco Solimão, o magnífico, que, em 1551, incorporou a região no império Otomano, a medina árabe com suas acanhadas ruelas, o fervilhar de comerciantes que, calmamente, esperam pelo comprador ávido de sensações. Chalés e palacetes italianos denunciam um recente passado colonial.

Aqui gastamos os últimos dinares, e eram bastantes! Antes de se entrar na Líbia são inúmeros os assédios para cambiar dinheiro (US dolares) no mercado negro, e nós não resistimos à tentação. Vai daí, tivemos dificuldade em lidar com tantas notas. É que chegam a pagar seis vezes mais que no câmbio oficial!

Por outro lado o gasóleo, que sempre é a grande despesa nestas viagens, aqui não representou praticamente nada. Fica mais caro uma bebida de cápsula no bar do hotel que encher todo o depósito de combustível. Incrível!

Depois de termos comprado um sem número de bugigangas nos bazares da medina, dirigimo-nos para a fronteira que estava a abarrotar. No entanto, as autoridades líbias, nos dias de hoje, privilegiam os turistas em 4X4. Preenchimento de formulários de saída, entrega da amolgada chapa de matrícula, contra reembolso da qual nos devolvem 50 dinares, e lá saimos com a promessa íntima de voltar para visitarmos, na próxima, o lago do vulcão Waw an Namus, o deserto negro deste 'reino das areias' que liga o Atlântico ao mar Vermelho atravéé de 5000 quilômetros de comprimento.


 

 

 

Dotzi Planeta Off-Road
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