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A Trilha do Telégrafo enfrentada debaixo de chuva com 14 quads
Por: Ronaldo Andrade

Saimos de São Paulo na quinta-feira, véspera do feriado de Páscoa, às 14:30 e enfrentamos os congestionamentos típicos de feriados. Pegamos a Régis Bitencourt, sentido Curitiba, até Pariquera-Açu e como estávamos com rádios VHF nos carros, fomos nos divertindo e passando o tempo da longa viagem, de 280 km sendo 59 km de terra, em razoável estado de conservação. Em Itapitangui, próximo a Cananéia, deixamos o asfalto e seguimos pela estrada que liga Itapitangui a Ariri. Como nosso companheiro Rubens já havia conversado 15 dias antes com o Sr. Henrique em um sítio próximo a entrada da trilha, deixamos lá as carretas com os quadris e seguimos para Ariri, distante 25 km de terra, só com as pickups e os quadris que estavam em cima das mesmas.

Pernoitamos em Ariri, em uma pousada, e como a ansiedade nao nos deixou dormir bem, acordamos em torno de 4:00 da manha e após um frugal desejum, voltamos os 25 km até o sítio. As 7:30 já estávamos de quadri percorrendo os 3 km de estradinha de terra até o primeiro rio, entrada da trilha.

Como as informações desta famigerada trilha sempre apontaram um quadro muito negro, procuramos não perder tempo e as 8:26 ja chegamos à famosa escolinha (temos foto com hora para comprovar), onde pudemos encontrar o primeiro poste remanescente da antiga linha de telégrafo, isto apesar de o Thiago meu filho, já ter dado uma capotadinha de leve em uma ponte estreita.

A emoção de todos que conheciam os relatos de jipeiros, foi muito grande. Mal podíamos acreditar que estávamos realizando nosso sonho de estar naquele lugar, na escolinha que tanto já ouvíramos falar.

Então começamos a trilha para valer e o resto da trilha foi relativamente tranqüilo, em vista do que esperávamos, apesar de minha cabeça ter "fervido" um pouco com os desencontros de puxa pra frente, puxa pra trás, amarra corda aqui ou ali, passe por aqui, não aí, normal neste tipo de trilha, nada que uma cerveja gelada não refrescasse e trouxesse a temperatura de volta ao normal. Mas devo fazer um mea-culpa e pedir desculpas aos companheiros, pois na fase de preparação, eu mesmo enviei uma mensagem a todos, pedindo que comparecessem com companheirismo, boa vontade, disposição e acima de tudo, muito bom humor. Isto é essencial em situações difíceis, como neste tipo de trilha pesada.

Chegamos em Guaraqueçaba as 13:30, recorde de seis horas, mesmo com muitas paradas nas sombras, para lanches e troca de idéias. No fim de semana anterior, outros 14 quadriciclos de nosso clube haviam percorrido a trilha em 10 horas. Nós dividimos o grupo do clube em duas turmas de 14 quadriciclos, sendo que com primeira turma, estava um jipeiro (Toninho da Videonorte) que conhecia bem a trilha. No nosso grupo, eu consegui pela internet o tracklog da trilha e fui de guia seguindo o GPS. Apesar que o importante é só encontrar o início da trilha, pois uma vez na mesma, não tem erro. Não tem outra saída até o fim.

No final da trilha, já no estado do Paraná, no bairro de Batuva, pegamos uma estrada de ligação de 30 km até Guaraqueçaba.

Esta nossa turma de "pilotos" de quadriciclos, gosta muito de acelerar e após cinco horas andando em baixa velocidade, quando encontramos estrada livre, é dedo em baixo no acelerador. Isto nos coloca um pouco em situação de risco de acidentes e precisamos nos educar e ficarmos mais "civilizados" ou ajuizados. Afinal a maioria é chefe de família. Nesta trilha, tínhamos dois pais com os filhos (Aldírio e Diego, Ronaldo e Thiago) e também um casal (Carlos e a Cláudia, que por sinal "toca" direitinho). A Cláudia ficava na minha cola e onde eu escolhia parar passar, ela acompanhava, acelerando bem, "a milhão", como ela dizia que eu entrava nos atoleiros.

Neste trajeto de estrada de 30 km, o quadri do Thiago arrebentou a correia da trasmissão, um defeito comum nos Polaris e teve de ser rebocado por mim até Guaraqueçaba. Devíamos ter levado uma de reserva, apesar de que não é uma troca muito simples de se fazer sem as ferramentas adequadas.

Como é um trecho muito rápido, o grupo se separou, tendo quadris a minha frente e vários atrás e quando cheguei à cidade, fui logo procurar transporte para o quadri do meu filho. Não tinha nenhum veículo de aluguel que pudesse levar o ATV até a BR 116, próximo de Cajati ou Jacupiranga para que eu o pegasse no dia seguinte com a pickup. Segundo informações, o asfalto fica distante 80 km de estrada muito ruim, onde a velocidade média gira em torno de 30 km/h (seriam três horas de viagem até o asfalto). E depois teria de pegar a estrada que corta a Serra da Graciosa, com muitas curvas e que segue em direção sul, oposta ao desejado, que sai próximo de Paranaguá.

Entao foi sugerido pelos moradores locais que eu alugasse um barco e o levasse até o porto de Ariri, que era muito mais fácil e mais barato, já que por terra, seriam 300 km até Cajati ou 600 km até SP. Então com muito custo, consegui um pequena embarcação daquelas de pesca, com motor Yammar (tú, tú ,tú ,tú). Conhecem o barulho deles?

Neste meio tempo ficamos sabendo que o ATV do Arnaldo quebrou o pivô da barra de direção e ele capotou para frente, quebrando a clavícula em dois lugares. Na cidade não tem nem raio X. Sorte que nosso companheiro Marcos Baroni, é paramédico e estava com o grupo que ficou para trás. Fez o Arnaldo ficar parecido com uma múmia de tanta atadura e colocou um colete cervical, que foi de suma importância. Assim o trouxe em sua garupa, bem devagar até o pronto socorro local, onde o médico quase nada pôde fazer, além de aplicar um injeção para tirar a dor e imobilizar o braço esquerdo. Mas devemos ressaltar a boa vontade e até heroismo do médico Dr. Marcelo, que mora em Paranaguá e enfrenta todo final de semana esta viagem de uma hora e meia a bordo de uma "voadeira", para prestar seus serviços a esta comunidade sem quaisquer recursos.

Sabem como o Arnaldo saiu de la? Pegou uma voadeira, aqueles barquinhos rápidos, pelos canais, até Paranaguá, depois, um taxi até o aeroporto de Curitiba e avião até SP. O quadri dele voltou junto com o do Thiago de barco.

Após termos carregado os quadris no barco, rezando para não acontecer uma vídeo cassetada, com o barquinho balançando com o peso dos dois quadris (600 kg os dois), ficamos no restaurante em frente ao pier assistindo o barco se afastar lentamente. Realmente uma cena inusitada.

Bom, passamos uma tarde agradabilíssima no pier da cidade, com direito a whisky 12 anos (Aldírio e Fiola levaram) e provolone de fabricação própria (Ronaldo) e cerveja, panqueca de siri, peixes, etc, só olhando o pôr do sol e jogando conversa fiada fora. Estava tão bom, que só saímos dali lá pelas 10 da noite, após um lauto jantar.

Mas a dona do restaurante olhou para as nuvens e disse: "Vai chover daqui umas três horas". E como ela previu, começou um chuvisco, que se tornou um chuva intermitente e a noite toda choveu muito, amanhecendo um aguaceiro.

Quando eu estava colocando o GPS de volta no quadri, o Rubens perguntou: "O que está fazendo? Não dá para ir! Os rios devem estar cheios! Temos que alugar um barco grande e voltar para Ariri." Mas eu estava resolvido a enfrentar e maioria decidiu voltar por terra. Assim o Rubens, meio a contra gosto, também resolveu ir conosco, mas foi por pouco tempo. O quadri dele começou a esquentar na entrada da trilha, já a 30 km de Guaraqueçaba e ele resolveu voltar e também alugou um barquinho, que teve o teto de compensado serrado para acomodar o quadri.

Saímos do Hotel Guarakessaba as 9:30, sendo que antes telefonei para minha esposa Ana e disse como estava chovendo e que não sabia se sairia da trilha no mesmo dia. De qualquer forma estávamos preparados para dormir no mato, com barracas, comida, saco de dormir, etc. Entramos na trilha as 10:30 da manhã, mas logo tivemos um contratempo. Um pneu destalonado e lá se foram 90 minutos para conseguir colocá-lo no lugar.

E não parava de chover e logo topamos com quatro jipes de Cotia, com os quais haviamos encontrado no dia anterior ainda na estrada, vindos de Guaraqueçaba, ou seja em sentido contrário ao nosso. Pretendiam fazer até Ariri. Mas com a chuva da noite eles haviam desistido e estavam voltando e tivemos de esperar que nos dessem passagem. Eles também nos informaram que lhes foi dito que o último rio havia subido seis metros (como jipeiro é exagerado!!! Ou mentiroso? Brincadeira, pessoal). Mas eu e todos estávamos dispostos a arriscar e continuamos assim mesmo.

Como foi boa esta trilha com chuva. Como tinha água e barro.

Passamos os quadris nos rios, flutuando, com seis pessoas segurando, para não entrar água no filtro de ar e no escapamento. Foi uma maravilha, graças a colaboração de todos.

No final, já no sítio onde deixamos os carros, o Aldírio abriu mais uma garrafa de "visky", que nos deixou num fogo só debaixo de chuva carregando os quadris nas carretas e pickups, maravilhados e eufóricos de termos conseguido terminar, com todas as dificuldades encontradas. Havíamos gasto nove horas para voltar (o que foi bem rápido em vista das dificuldades e de duas horas perdidas com o pneu destalonado e o quadri do Rubens esquentando) e já estava escuro quando acabamos de carregar os quadris.

A maioria seguiu viagem de volta para São Paulo, mas Toninho Fiola, Thiago, Albery, Marcos Baroni e eu, tivemos de voltar para Ariri, distante 25 km para ver se os quadris haviam chegado de barco (eu estava rezando para que sim). Logo encontramos o porto e já vi um barquinho com os dois quadris. Foi um grande alívio e enquanto procuravam pelo barqueiro pude fazer muitas amizades no boteco em frente (um gambá cheira o outro, não é).

Mas e o Rubens? Onde estaria? Afinal já eram quase 8:00 da noite. Depois que descarregamos o barco, vimos uma luzinha ao longe e imaginamos que fosse ele. E era. Depois de quatro horas de viagem a 10 km/h, com chuva e a noite que chegou, lá estava o Rubens. Ou seja, ele saiu do espeto e caiu na brasa. Achou que a trilha seria impossível de ser feita com aquele tempo, mas a ida de barquinho também foi muito difícil, ainda mais depois que escureceu. São tantos canais, segundo ele, que nem com o GPS, que ele manteve ligado, se consegue fazer uma navegação fácil. Mas foi tudo bem, carregamos tudo e seguimos viagem.

Passamos novamente no sítio, pegamos as carretas e o carro do Toninho (a esta altura eu já estava curado do porre) e fomos dormir em Peruíbe, onde se encontravam minha esposa e filhinha, preocupadas com a falta de notícias. Não sem antes um pneu furado da minha carreta, ainda na estrada de terra, tendo que descarregar o quadri e meu filho foi pilotando até proxima cidade, Itapitangui. Lá, acordamos um borracheiro, em pleno sábado de Aleluia que deu um jeito. Estas aventuras nunca são completas sem estes contratempos.

Chegamos em Peruíbe 3:30 da manhã de sábado. (Fiola, Rubens, Marcos, Ronaldo e Thiago, com tres carros e 5 quadris)

Por fim uma sugestão a todos que algum dia forem fazer esta trilha e mesmo em outros lugares pobres. Nós levamos várias cestas básicas, balas, doces, chocolates e bombons (afinal era Páscoa) para distribuir nas "casas" ao longo do percurso. Em cada casa que parávamos, era uma festa, pois tem muita criança por lá (será falta de TV?). E a nossa turma da semana anterior levou brinquedos.

Isto é muito importante para promover a integração da comunidade local com os trilheiros e seremos sempre bem vindos. E também é uma satisfação ver a alegria das crianças. Além disto, devemos é claro, respeitar as propriedades por onde passamos.

Temos um belo filme da aventura. Fotos não muito boas devido à chuva. Mas as recordações serão guardadas em nossas mentes para sempre. Ou pelo menos até a próxima empreitada, que esperamos seja em breve.

Participantes

Ronaldo Andrade - Yamaha Grizzly 660 com pneus Big Foot (tratorzão)
Thiago Andrade - Polaris Sportsman 500 Remington (também com pneuzão - piloto malucão Billy Júnior)
Aldiro Cruz - Honda Rincon 650 (0 km - parece um carro)
Diego Cruz - Honda Fourtrax 325 (já está ficando maluco como os mais velhos - está querendo entrar para turma dos Billy Bronx)
Antônio Fiola - Honda Fourtrax 325 (presidente do ATV Clube)
Chicão (Tuareg Motos) - Honda 325 (com seu fiel escudeiro Neto)
Valdecy - Honda 325 (incansável trabalhador, ajudando a todos)
Edson Teubner - Yamaha Grizzly 600 (ninguém aguentava mais o barulho de seu escapamento)
Carlos Guarany - Kawasaki Prairie 650 (zero bala, estreando)
Cláudia Guarany - Polaris Sportsman 500 H.O. (ela pilota bem)
Albery Spinola - Kawasaki Prarie 400
Arnaldo Preisegalavicius - Kawasaki Prarie 400
Rubens Límoli - Artic Cat 500 (com mais equipamentos que caminhões do Paris-Dakar, inclusive com telefone via satélite)
Marcos Baroni - Kawasaki 300 (paramédico equipado até os dentes, inclusive com colete cervical).

 

 

 

Dotzi Planeta Off-Road
- geral@planetaoffroad.com


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