Mais de 8 mil km, sem compromisso...
Texto e fotos:
Debora Manzano
Época
de Festa Junina. Bandeirinhas enfeitavam as cidades por onde
passávamos. Eu e o Wagner de férias. Nosso principal
destino? A Chapada Diamantina na Bahia! E depois? Barreiras
(BA) e Chapada dos Veadeiros (GO). Também conhecer os
amigos da JipeNet (NR: lista de discussão sobre off-road
na internet) que moram em Brasília e Goiânia. Mas
no fim nada disso aconteceu. Fomos realmente para o Ceará.
Percorremos 8.307 km com um Suzuki Samurai, apelidado carinhosamente
de Smurff.
Saímos de São Paulo às 19h do dia 31 de
maio. Não queríamos perder um só minuto,
pois teríamos que estar de volta no dia 18 de junho,
data em que o dever nos chamava de volta! Depois de percorrer
540 km pela Rodovia Fernão Dias - que não
está totalmente duplicada e com um asfalto todo remendado
- paramos para dormir, às 2h da madrugada, em Betim
(MG), próximo de Belo Horizonte.
Logo cedo, fizemos um passeio pelo centro de Belo Horizonte
e depois seguimos por Santa Luzia e Ipatinga, até chegar
em Governador Valadares (MG). É um trecho onde o asfalto
está bom, mas que se torna cansativo por causa da serra.
Tínhamos planejado chegar até Vitória da
Conquista, mas desistimos devido a alguns imprevistos: além
das serras que enfrentamos, em Campário (MG), abasteceram
o Samurai com Diesel (o frentista "pensou" que o jipe
fosse uma Toyota). Então resolvemos parar e descansar
em Itaobim (MG), onde chegamos às 20h. Apesar de ter
outro trecho de serra próximo a Itaobim, o visual é
lindo! Vale a pena percorrer de dia!
Saímos
de Itaobim, passamos por Vitória da Conquista (BA) e,
para chegar mais rápido a Andaraí (BA), saímos
da BR 116 e fomos no sentido Anagé, Tanhaçu e
Ituaçu (BA). Em Ituaçu há uma caverna muito
interessante, chamada Gruta das Mangabeiras. É uma gruta
religiosa: tem até altar, bancos para a missa, como se
fosse uma igreja. Passando por trás do altar, há
uma entrada para a caverna que tem cerca de 3.240 m a serem
percorridos a pé. Antes de entrar na caverna, é
necessário pagar a taxa de manutenção (R$10,00)
e contratar um guia da Associação de Guias da
Gruta das Mangabeiras (custa uma gorjeta). São eles que
vão conduzir o passeio, que tem dois roteiros a serem
feitos. O primeiro é só pelos 600 m iniciais,
retornando depois à capela. O segundo, percorrer os 3.240
m e sair pelo outro lado, onde um motorista contratado por nós
(R$10,00) espera para nos levar de volta à entrada da
caverna. É um passeio muito diferente.
Saindo de Ituaçu, passamos por Barra da Estiva, Capão
da Volta, Cascavel, Mucugê e, finalmente, Andaraí,
onde chegamos debaixo de chuva. Devido à Festa do Divino
Espírito Santo (que acontece anualmente no início
do mês de junho), quase ficamos sem hospedagem.
Ficamos muito empolgados na manhã seguinte, quando vimos
uma claridade muito forte entrar pela janela. Nosso desejo mais
profundo era que fizesse um sol maravilhoso mas, ao abrir a
janela, ficamos decepcionados: estava chovendo. Mesmo assim
decidimos ir até o Poço Encantado. Ao estacionarmos
o carro, um leve raio de sol iluminou nosso caminho. Tive certeza
de que o meu tão esperado sonho (de ver o raio de sol
no poço) seria realizado. Então, descemos rapidamente
e entramos na caverna, mas não demorou muito e começou
a chover forte. Decepcionados,
passamos pela entrada do Poço Azul (repleta de lama!!!)
e voltamos para a pousada. Arrumamos nossas coisas e, de última
hora, resolvemos ir para Jericoacoara.
Colocamos o nosso último galão de gasolina, pagamos
e fomos embora. Andados 60 km, começamos a sentir um
cheiro forte de gasolina. Paramos para verificar e, para a nossa
surpresa, esquecemos a tampa do tanque na pousada. Resolvemos
o problema improvisando uma flanela como tampa do tanque e seguimos
viagem. Para a nossa surpresa número 2, o sol estava
belo e radiante. Mas, ao olharmos para trás, aquela escuridão
provocada pelas nuvens de chuva nos arrepiava. Passamos por
Rui Barbosa, Mairi, Capim Grosso (BA) e paramos para dormir
em Senhor do Bonfim.
Depois de uma noite em que lutamos pela sobrevivência
contra os pernilongos, caímos na estrada. Passamos por
Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), onde a divisa de estado é
feita pelo "Velho Chico", o rio São Francisco!
Seguimos pela BR 122 até Lagoa Grande, entra em Jutaí,
segue por Lagoa, Santa Cruz e Ouricuri, onde pegamos a
BR 316. Passamos por Araripina (PE) - onde se vê a Chapada
do Araripe -, Francisco Santos (PI) e continuamos pela BR 020
até Tauá (CE). Da BR 020 até a divisa com
o Ceará, a estrada é um tapete, porém deserta.
Mas depois da divisa, a velocidade não passa de 40 km/h.
São 111 km de buraco, mas o mapa indica 81 km. Chegamos
em Tauá bem cansados.
No dia seguinte, decidimos seguir por um caminho mais off-road,
afinal o Smurff já estava cansado de asfalto. Fomos então
pela estrada de chão que passa por Trici, Quiterianópolis
e Novo Oriente (CE). Voltando para o asfalto, seguimos para
Crateús, Nova Russas, Ipueiras e Ipú (CE) - aqui
também vale a pena visitar a cachoeira Bica do Ipú,
que tem 130 m de altura, e saborear a carne de carneiro no restaurante
que fica próximo à queda. Saindo de Ipú,
seguimos para Varjota, Cariré (CE) e pegamos BR 222 até
Sobral (CE). De lá é fácil chegar em Jijoca:
é só ir até Morrinhos, Marco, Bela Cruz,
Cruz (CE). Depois de 60 km de estrada de chão, chegamos
em Jijoca de Jericoacoara.
Às
8h, o guia que contratamos (R$15,00) chegou à pousada
para iniciarmos o passeio. Fomos contornando a Lagoa do Paraíso
até chegarmos à Lagoa Azul, onde tem um barzinho
em que, se você quiser ficar o dia inteiro, não
tem problema. Dali contornamos a lagoa até sair na praia
do Preá. Até chegar a Jericoacoara, percorremos
a orla da praia e algumas dunas. Descemos até a Pedra
Furada, o cartão postal de "Jeri". Vá
também conhecer Tatajuba. É necessário
atravessar de balsa a Lagoa Grande - o carro vai numa
jangada, mas é seguro. Em Tatajuba tem um restaurante
muito especial. Além dos frutos do mar serem frescos,
as mesas são colocadas dentro da lagoa; é bem
diferente! Na parte da tarde, voltamos para a Lagoa Azul e curtimos
um final de tarde muito tranqüilo.
Como
a nossa programação não valia para mais
nada, fomos para a casa de um amigo que mora em Fortaleza (CE).
Saímos da pousada às 9h e pegamos a estrada. Seguimos
por Amontada, Itapipoca, Barrento, São Gonçalo
do Amarante e paramos em Cumbuco (CE) para ver o mar e as dunas,
mas como era meio de semana, a praia estava vazia. O que me
decepcionou bastante foi o lixo jogado na areia. Mas as dunas
são super limpas e lindas. Dali paramos para descansar
em Icaraí (CE).
Passamos o dia passeando pela Capital do Ceará e já
nem dava mais para nos perdermos. Como perdi o nosso guia de
estrada (eu esqueci em cima do capô do carro), fomos comprar
outro em alguma banca de jornal. O problema é que, um
dia antes, a distribuidora tinha recolhido todos os guias de
2001. Depois de vasculharmos por todas as bancas de Fortaleza,
foi com um mapão de 1998, aos pedaços, que conseguimos
voltar a São Paulo.
Ainda em Fortaleza, nos hospedamos na casa do nosso amigo Cláudio.
Às 6h da manhã, Cláudio nos acordou para
assistirmos o jogo de vôlei do Brasil contra a Holanda.
E, como era de se esperar, o Brasil venceu por 3 sets a 0. Mas
não foram só os jogadores que deram um show. A
torcida fez bonito, não teve um só minuto em que
deixaram de apoiar o Brasil. E no momento do último ponto,
o ginásio quase "veio abaixo".
À
tarde, seguimos para Morro Branco, uma vila de pescadores a
50 km de Fortaleza (CE). Passamos pelas praias de Aquiraz, Iguape
(vale a pena passar na parte da tarde, pois os pescadores estão
recolhendo suas jangadas e é muito legal para fotografar)
e Caponga (CE). Tivemos que atravessar mais dois rios: o Mal
Cozido e o Choró. Cada travessia de balsa custou R$5,00.
E, novamente, ficamos hospedados na casa do Cláudio.
De manhã fomos passear pelas praias. Fizemos uma parada
nas falésias da praia de Morro Branco e lá descobrimos
como são feitas aquelas garrafas com areia colorida.
Passamos pela Praia das Fontes, do Diogo, Uruaú, Barra
de Sucatinga, Piquiri, Ariós, Prainha do Canto Verde,
Paraíso, Parajuru, Gamboa e, finalmente, Fortim, onde
paramos para almoçar às, 14h. Dali voltamos pela
estrada até Morro Branco, onde ficamos hospedados novamente
na casa do nosso amigo Cláudio.
Continua...
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