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Jalapão - parte 2
Confiando
no veículo e no motorista, seguimos adiante, sempre
com a tração engatada. Nosso primeiro destino:
Cachoeira da Velha. Mas, para chegar até lá,
passamos pela Fazenda Tri-Agro, que foi palco de uma fulminante
ação da Polícia Federal, que desmantelou
um esquema de tráfico que funcionava no local aproveitando
o isolamento da região. Dois tanques de combustível
com bombas, para o abastecimento dos veículos e dos
dois grupos geradores (para fornecer energia elétrica),
alojamento para mais de 50 pessoas e uma casa principal com
todo luxo que se pode imaginar. Tudo foi tomado e está
nas mãos do Governo, que mantém um funcionário
no local para evitar que vândalos (existem até
lá) destruam o que restou.
Passamos pela fazenda,
apenas um cachorro atendeu às nossas insistentes buzinadas.
Seguimos o que nos pareceu ser a estrada correta e chegamos
a uma clareira próximo ao rio. Uma trilha nos levou
até uma escada em construção (dois terços
estão prontos), que desce até a primeira praia
que visitamos. Para se ter noção do tamanho
da praia, basta localizar dois pontinhos na água: são
Abner e Dinah. Descemos um pouco pela margem esquerda e verificamos
que não havia cachoeira nas proximidades, mas ainda
assim valeu, pois descobrimos mais uma praia de areias praticamente
intocadas.
Voltamos até o carro e pegamos uma outra estrada, desta
vez subindo ao longo do rio. De repente, um rugido grave,
ao longe, anuncia que estamos no caminho certo. Mais alguns
minutos e ela surge, parcialmente encoberta pela mata ciliar.
O Rio Novo, depois de uma curva, segue placidamente em seu
leito para, logo em seguida, despencar em dois caldeirões
borbulhantes em forma de ferradura.
A trilha segue até entrar na mata,
aonde desce, nos conduzindo ao poço do lado esquerdo.
Já é início da estação
seca mas, mesmo assim, a água nos molha ao ser borrifada
contra a mata que cerca o poço. Já na beira
do poço da margem esquerda, descemos pelas pedras (escorregadias)
até o ponto em que o rio se torna uno novamente e pudemos
ver as duas quedas.
Completada a primeira parte do reconhecimento,
uma parada para relaxar e preparar o almoço. Um fogareiro,
uma panela e, em questão de minutos, estávamos
devorando um Miojo como se fosse a comida mais saborosa do
planeta, devidamente acompanhado de um suco Maguary, diluído
nas águas do Rio Novo.
Neste momento, pudemos aproveitar um pouco do que o Jalapão
tem a oferecer. O carro foi estacionado um pouco acima da
cachoeira, cerca de 500 m, junto a algumas árvores,
aonde é possível armar uma rede e simplismente
ficar apreciando, embevecido. Outra opção é
"caminhar" por dentro do rio; o leito é de
pedras com muitos bancos de areia, o que nos permitiu chegar
até o meio, aonde, fincando os pés na areia
do fundo e jogando o corpo contra a correnteza, é possível
ficar por uma eternidade, escutando os ruídos da natureza,
embalados pelo balanço das folhas dos buritis, que
crescem ao longo das margens.
De volta à estrada, seguimos agora
com destino às dunas. A estrada fica cada vez mais
poeirenta. Ao passarmos pela ponte sobre o Rio Novo, quilômetros
rio acima, paramos para apreciar novamente sua beleza e encontramos
com o proprietário da empresa responsável pela
rede elétrica que em breve estará levando energia
a Mateiros (atualmente funciona com dois grupos geradores).
Um minuto para um dedo de prosa e continuamos a jornada.
Ao longe, a Serra do Espírito Santo vai crescendo à
medida em que avançamos. Nossa referência para
a entrada das dunas é uma pista de pouso na própria
estrada que estamos seguindo mas, de repente, uma mancha amarelo
ouro surge à nossa esquerda e lá estão
elas. Pouco depois, a entrada, já sinalizada por uma
placa, nos informa que serão 4,5 km de areia até
as dunas. O jipe escorrega de um lado a outro, balança
todo, mas segue o rumo marcado. Uma lombada e estamos novamente
abobalhados.
Com aproximadamente 40 metros de altura,
completamente circundada por veredas repletas de buritis e
vegetação arbustiva muito verde, as dunas impressionam
de baixo e encantam quem ousa subi-las. Tem-se a impressão
de ser o primeiro a pisar naquelas areias, constantemente
alisadas pelo vento. Do topo, avista-se a Serra do Espírito
Santo, imponente, e, como feridas abertas, veios de pedras
expostos são erodidos lentamente pelas chuvas e pelo
vento, fornecendo a areia sobre a qual caminhamos sem rumo.
O objetivo agora
é o povoado de Mateiros. Ele surge à nossa direita,
mas a estrada teima em seguir contornando a Serra do Espírito
Santo e vai para a esquerda. Ainda temos bastante combustível,
mas o receio de ter errado o caminho começa a nos incomodar.
Mais à frente, encontramos um grupo de trabalhadores
montando a posteação para a rede elétrica.
Uma informação e seguimos adiante: uma antiga
estrada seguia diretamente para o povoado, mas várias
pontes ruíram e foi considerado mais prático
aumentar em mais de 30 km a estrada para evitar ter que refazê-las.
Chegamos a Mateiros quase no final do dia. Mas agora, acompanhados
por Carlos, proprietário da única pousada do
povoado e guia, vamos conhecer a cachoeira do Hortêncio.
Saímos pela estrada que liga Mateiros ao Piauí
e, após alguns quilômetros, Carlos nos pede para
virar o jipe para a direita. Procuramos uma estrada, mas é
em vão. Deste ponto em diante, seguimos um trilho,
aberto pelo pessoal da região; dois caminhos paralelos
que cortam o cerrado, desviando de árvores e outros
obstáculos, que só os locais conseguem ver.
O jipe pára
em meio a um pasto natural. À nossa frente, um regato
corta o cerrado e some em um capão de mata, e é
nele que nos embrenhamos. A trilha é curta e, um minutinho
depois, já escutamos a queda. Pequena e escondida na
mata, é considerada por Carlos uma das que tem a água
mais fria da região. O dia estava terminando e hesitamos
em entrar, mas foi só molhar a mão para que
todo receio se desvanecesse. Quem vem de Minas não
vai encontrar água fria no Jalapão.
De volta a Mateiros, um banho no único chuveiro da
pousada (Carlos garante que, em julho, já terá
terminado de construir a ampliação, com mais
dois banheiros e três quartos que, por enquanto, estão
no tijolo e ainda sem telhado), uma cervejinha para relaxar
e o jantar, que não tem como ser mais caseiro: arroz,
feijão, carne, macarrão, couve e outros acompanhamentos
que não nos lembramos mais. Mas foram dois pratos para
cada um e, depois, cama para juntar forças para continuar
o reconhecimento.
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