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Tito Rosemberg: uma aula de vida através de expedições
Fotos: Tito Rosemberg

"Uma viagem é como um curso de pós-graduação em viver". Com essa filosofia, Tito Rosemberg já conheceu 66 países de 5 continentes, montando um acervo com 40 mil slides, 10 mil fotos e 200 horas de vídeo..

Planeta Off-Road: Como foi a aventura do Camel Trophy?

TitoTito Rosemberg: Uma loucura! Eu consegui participar pois estava mais a fim de me divertir do que de competir. Por natureza, tenho um espírito pouco competitivo, e a adrenalina que aflora numa hora destas não me faz confortável. Por isto, há décadas que não participo de nenhum tipo de disputa: não faço ralís, não jogo cartas, não jogo nem futebol nem outro esporte que envolva na vitória de um e na derrota de outro. É uma situação peculiar: se perco, fico triste por perder, se ganho, fico triste pois fiz alguém sentir-se derrotado. Daí, que prefiro optar por um comportamento talvez excêntrico, mas que me permite viver menos atordoado. Esta é a principal razão, de depois de muitas décadas pilotando 4x4 e surfando pelos cinco continentes, nunca ter participado de ralís, enduros nem campeonatos de surf, e que às vezes dificulta minha participação em eventos 4x4. Fui para o Camel Trophy sabendo de antemão que já havia ganhado o melhor prêmio: poder participar de uma aventura alucinante em Bornéu, na Indonésia, mesmo estando completamente sem grana naquela época. Durante o Camel Trophy, cheguei a ser criticado por um jornalista brasileiro presente ao evento, pois "não estaria tentando trazer o caneco para o Brasil", quando na verdade o que eu queria era poder participar desta fantástica aventura que é "viver o Camel Trophy". Nosso (Carlos Probst e eu) Land Rover foi o primeiro na história do Camel, a levar a bordo um toca-fitas, onde roncavam Jimmy Cliff, Gal Costa e Eric Clapton. À noite, quando acampávamos, era em torno de nosso carro que a festa de congraçamento entre aventureiros de diferentes nacionalidades, rolava. Enquanto os outros "competidores" recuperavam suas energias para as disputas do dia seguinte, nós aproveitávamos para dividir experiências com os outros pilotos, os mecânicos da Land Rover e os membros da organização do evento, cada um uma figura marcante e com muitas histórias para contar. No final, quando os participantes votaram no primeiro Troféu Espirito de Equipe da história do Camel Trophy, Carlos e eu ganhamos porque fomos para nos divertir e não para ganhar. Meu barato é viajar e conhecer outras culturas e tradições, e os veículos tracionados são perfeitos para isso.

Planeta Off-Road: E o que significou o Troféu Espirito de Equipe?

TitoTito Rosemberg: Significou o reconhecimento dos nossos companheiros de aventura, de que a tartaruga e a lebre sempre acabam chegando junto, e de que na vida não há atalhos. Com o pouco treinamento que pudemos ter aqui no Brasil antes da viagem, e com o excelente preparo que as equipes estrangeiras tiveram, durante vários meses antes da prova, nossas chances de ganhar o prêmio por resultados eram muito pequenas. Daí que nós nos preparamos mesmo era para fazer muitos amigos, o que realmente aconteceu. Os dois outros brasileiros que competiam em outro Land Rover, foram para ganhar, e além de não conseguirem, não fizeram amigos e no final já nem se falavam um com o outro. Ao contrário deles, Carlos Probst, que conheci na seletivas do Camel e que também preferia o prazer antes da vitória, tornou-se um dos meus melhores amigos, como somos até hoje.

Planeta Off-Road: De todos os lugares que visitou, qual foi o mais bonito?

Tito Rosemberg: Sem dúvida nenhuma o Sahara. O Arquipélago das Anavilhanas, no Rio Negro, o Pantanal brasileiro, a Califórnia e as ilhas gregas são difíceis de se comparar mas são lugares inexplicavelmente magnéticos e de uma beleza cativante. O estado do Utah, nos USA, perto dos parques nacionais de Bryce Canyon, Zion, Arches e Canyonlands, também é de arrasar, principalmente no sul. Búzios, onde moro parte do ano, também já foi um paraíso, mas a especulação imobiliária a está transformando num favelão. Se a prefeitura local não reservar as poucas áreas virgens para parques e outras unidades de conservação, já já vai virar Camboriú ou Guarujá.
Tito
Planeta Off-Road: Alguma história interessante, curiosa e bizzara ?

Tito Rosemberg: Interessante, curioso e bizarro mesmo é o comportamento dos funcionários das embaixadas e consulados brasileiros no exterior. Arrogantes e antipáticos por definição, apesar das poucas mas honrosas exceções, os funcionários dos consulados acham que estão acima do bem e do mal quando tratam com os brasileiros fora do país. Ao precisar de qualquer serviço num destes locais, o cidadão brasileiro e mesmo estrangeiro é tratado como se fosse um sacoleiro em apuros com as leis locais, ou um traficante em férias ou um trabalhador ilegal. São tantas e tão diversas as minhas experiências envergonhantes nos consulados e embaixadas, que diversas vezes pensei em mudar de nacionalidade só para poder me sentir respeitado. Creio que 99% das vezes em que precisei de alguma coisa numa repartição diplomática brasileira no exterior, não tive sucesso. Acho o comportamento dos diplomatas brasileiros interessante, curioso e certamente bizarro.

Planeta Off-Road: Melhor momento da sua vida?

Tito Rosemberg: O hoje! Não sei o que me passa, mas hoje, quando chego aos 51 anos de idade, vejo minha vida passada e atual como muito boa, e melhorando. Não sou religioso, mas espiritualizado, respeitando as mais de 100 religiões que encontrei pelos quatro cantos do planeta. E como a espiritualidade é a única garantia de felicidade plena, acho que a cada dia fico mais tranqüilo e integrado com minha lenda pessoal. Isso não quer dizer que durmo sobre um colchão de pétalas de rosas, pois toda rosa vem de uma roseira cheia de espinhos. TitoAcho que os espinhos da vida são as experiências mal vividas, e isso geralmente acontece quando nós não estamos sintonizados com aquilo que realmente queremos fazer. Quanto menos nossa personalidade for um roteiro de filme, mais felizes seremos. Com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, persigo os meus sonhos como se fossem nada mais do que um aperitivo do que vai vir pela frente. Sei que quando durmo, se sonhar com um fusquinha 72 acabado ou com um Land Rover zerinho, ao acordar, o custo terá sido o mesmo, e por isto sempre sonho com coisas boas, lugares agradáveis e experiências enriquecedoras. Mesmo quando no meio da maior confusão profissional, desilusão amorosa, dureza total ou impasse filosófico, sempre mantenho a fé de que, imbuído de boas intenções, tentando ser melhor e servindo aos outros, conseguirei chegar ao estado da plena satisfação.

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