Pilotando na areia
O
Brasil é um país rico em terrenos arenosos, que
exigem técnicas de condução 4x4 específicas.
Por isso, Planeta Off-Road traz para seus leitores algumas dicas
básicas que podem ser de grande utilidade nas incursões
pela areia. O texto é de João Roberto de Camargo
Gaiotto e está presente no livro "Técnica 4x4
- Guia de Condução Fora de Estrada". Confira.
Areia
Em diferentes estados do Brasil, os terrenos arenosos têm
características variadas, como os cerrados das chapadas
dos Guimarães, dos Veadeiros e Diamantina, o Pantanal
do Mato Grosso e as regiões litorâneas. Fora do
País, existem áreas desérticas como o Atacama
no Chile e os escaldantes desertos africanos, entre tantos outros.
Em uma mesma região, áreas inexploradas e sem
rastros de outros veículos podem esconder armadilhas
para os novatos, já que a consistência do solo
pode variar sem alterações perceptíveis
em uma primeira e descuidada inspeção. Para transitar
nestas regiões tem-se que procurar atender a requisitos
básicos como potência e repidez de resposta do
motor, tração nas quatro rodas, atenção
permanente e sensibilidade para administrar a condução,
sempre atento aos limites do veículo e seu comportamento.
Para
atravessar trechos com muita areia solta, engate as rodas-livres,
a tração 4x4 e o blocante, sempre antes de enfrentar
o trecho. A marcha ideal depende muito do tipo de areia que
terá pela frente, mas invariavelmente uma segunda ou
terceira reduzida podem ser tentadas. A experiência irá
lhe mostrar a solução para cada local.
Ao entrar no trecho, segure o volante com firmeza; você
tem agora uma situação diferente do tráfego
em pedras. Entre com determinação, mantendo a
aceleração alta e constante. Uma vez iniciado
o deslocamento, aproveite o embalo adquirido e procure não
frear bruscamente quando precisar parar. Freie com suavidade
ou tire o pé do acelerador, deixando que a resistência
do terreno segure o veículo até a imobilidade
total. Se você frear com violência, o travamento
momentâneo das rodas provocará o acúmulo
de areia na frente de todos os pneus, que terão dificuldade
em subir esses pequenos montes para seguir adiante.
Evite fazer curvas muito fechadas, pois os pneus do lado de
fora da curva irão afundar na areia. No caso de atolar,
tente primeiro mover o veículo com uma arrancada suave;
se precisar dê uma ligeira marcha à ré e
em seguida engate uma segunda reduzida. Faça
isso com destreza até criar um suave balanço,
ou "momentum", como é mais conhecido, que embalará
o veículo por cima da areia fofa iniciando o movimento
para sair do buraco. Quando sentir que pode sair, use a segunda
marcha e siga adiante. Saber usar o balanço ou "momentum"
ajuda muito o veículo a iniciar o deslocamento e não
perder o embalo alcançado com tanta dificuldade.
Por outro lado, se você encalhar não há
por que se sentir derrotado, já que todos, sem exceção,
até mesmo os pilotos do Paris-Dakar encalham, mais cedo
ou mais tarde, em trechos de areia fofa. Agora é hora
de aliviar o peso e começar a cavar. Passageiros e pessoas
próximas poderão ajudar-lhe, mas no momento certo,
pois tentar empurrar agora não vai resolver o problema.
Inicie cavando em frente ou atrás de todas as rodas,
dependendo de que direção você decidiu tomar,
se adiante ou à ré.
Faça uma rampa suave para que os pneus iniciem o deslocamento.
Use, se possível, pedaços de madeira, papelão,
tapete, lona ou tecido, enfim, qualquer coisa que crie uma superfície
firme para o pneu deslizar.
Se tiver água em abundância por perto, como na
praia, por exemplo, molhe a areia logo à frente ou atrás
das rodas, de acordo com a direção que você
decidiu seguir, que isso irá compactá-la e facilitará
a operação. Só tome cuidado para que a
água salgada não entre em contato com as partes
mecânicas e com a carroceria. Outros artifícios,
como diminuir a calibragem dos pneus, podem ser utilizados.
Feito tudo isso, é hora de chamar as pessoas que puderem
ajudar. Dê a partida, use uma segunda marcha reduzida
sem acelerações bruscas e solicite que empurrem
o veículo sem balançá-lo para os lados,
pois essa manobra irá fazer com que os pneus voltem a
cavar a areia, afundando ainda mais. Se conseguir sair, não
pare até conseguir terreno firme, caso contrário,
é hora de começar tudo de novo.
Caso as tentativas acima não resolvam o problema, você
pode ainda utilizar o guincho e outros acessórios de
resgate.
Estando
em comboio, evite sempre que possível utilizar a trilha
deixada pelo companheiro da frente, pois ele cavou o terreno
e você só irá cavar mais fundo ainda, podendo
encalhar mais facilmente. Isso é comum em regiões
como o Pantanal do Mato Grosso, quando o veículo que
segue na frente deixa sulcos profundos na areia pura, piorando
as condições para aquele que vem atrás.
Deslocamento em praias
O Brasil é um país abençoado por ter uma
generosa extensão litorânea. Em inúmeros
lugares, a prática de circular com veículos na
areia da praia é uma necessidade de locomoção
de moradores, ou razão para momentos de puro lazer dos
turistas. A sensação de bem-estar e liberdade
é muito grande, mas proporcional ao nível de desespero
de ver o veículo encalhado e prestes a ser engolido pela
maré. Andar na praia pode ser prejudicial à conta
bancária! Se você está desbravando a região
pela primeira vez, tente saber como é o tipo e o comportamento
do solo por onde pretende passar. Pesquise com os moradores
locais sobre o horário das marés e outros detalhes
que podem ser cruciais em uma incursão litorânea.
Na maior praia do mundo, a Praia do Cassino, no Rio Grande do
Sul, existem certos trechos perigosos, mais ao sul, onde se
pode encontrar uma camada fina de areia com muito lodo por baixo.
Nestas situações extremas, onde se pode atolar
muito próximo da rebentação, você
tem que tomar decisões com rapidez e chamar ajuda quando
necessário. Mas se você estiver em comboio, trabalhe
em equipe engatando o veículo em tudo o que estiver ao
alcance, para retirá-lo o mais breve possível
do atoleiro.
O movimento das ondas gradativamente vai afundando os pneus,
fazendo com que o chassis e a carroceria fiquem enterrados na
areia. Se não forem tomadas as providências corretas
a perda é inevitável. Para o deslocamento por
esses trechos, sempre que possível informe-se com pessoas
que transitaram por lá ou contrate um guia que conheça
os segredos do lugar. Evite viajar sozinho para que as emergências
sejam resolvidas em tempo hábil. Procure sempre andar
por onde existe areia molhada; você pode transitar logo
após uma chuva ou de manhã cedo, quando a água
ou o orvalho ajudam a compactar a areia, facilitando a viagem
e permitindo um tráfego seguro. Também nas praias
é comum que pescadores locais finquem troncos na areia,
com a finalidade de amarrar barcos pesqueiros. Com o tempo,
esses famigerados troncos vão sendo enterrados pela areia
e acabam ficando com apenas um toco exposto de no máximo
20 ou 30 centímetros de altura. É
fácil deduzir o que pode acontecer se você estiver
em alta velocidade e topar com um toco desses no caminho: você
poderá capotar facilmente!
Fique atento e procure por pequenos obstáculos pela praia,
para que a viagem possa ser desfrutada sem problemas. Mas os
cuidados não param por aí; a praia e a areia
requerem mais providências. Após o deslocamento,
não se esqueça de passar no posto mais próximo
para recalibrar os pneus, se você precisou esvaziá-los,
e lavar muito bem toda a parte de baixo, como o chassis e a
carroceria. A areia é muito abrasiva e, em contato com
os componentes da suspensão, poderá causar desgaste
prematuro de algumas partes móveis. O mesmo é
válido para incursões próximas ao mar,
porque a maresia e a água salgada são um veneno
para a carroceria. Portanto dê uma boa ducha nele!
Para finalizar, lembre-se de que na praia, na grande maioria
das vezes, você estará dividindo o espaço
com veranistas. Verifique as normas locais e circule com seu
4x4 apenas onde é permitido.
Texto: João
Roberto de Camargo Gaiotto - Técnica 4x4 - Guia de
Condução Fora de Estrada |
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