Vendi o Jeep!
por Eraldo
Cardoso Santana
Hoje é que me dei conta de como é bonito meu
armário de cozinha, branquinho , com um tampão
preto ônix de granito. As coisas de casa cabem certinho
dentro dele, as panelas da Madame, os talheres nas gavetas,
os potes de conservas. Tudo bonito, lustroso.
E a minha sala, espaçosa, com um lindo jogo de sofá
em couro, aparador no canto, uma pintura em grafiato na parede,
um show de ambiente, aparelho de CD estilizado, com um sonzinho
ambiente maneiro, ligth.
O quarto tipo suite com banheira de hidromassagem e uma
vista maravilhosa para o quintal faz par com o closet espaçoso,
parecendo ainda maior do que realmente é.
Não poderia deixar de falar dos outros dois quartos,
mas vou logo para a sala de TV e vídeo onde meu home
theater reina soberano, sendo o xodó de todos que convivem
comigo. Nele eu assisto em dvd as trilhas que fiz, os Jeep cross
que participei, o Rally dos Sertões com um som Dolby
estéreo Surround de primeira qualidade, ah como é
bom poder trilhar, aliás era, o bom agora é sentar
no sofá da sala de Vídeo e ficar relembrando os
tempos passados e gravados em mídia digital.
Tem um lugar onde minha assistente doméstica é
quem dá as ordens, a área de serviço com
máquina de lavar, tanquinho, secadora, e o escambal.
Prá que elas querem tantos apetrechos se não tem
mais roupa suja de lama, botas incrustadas de barro, marca de
óleo nas camisas, mil e uma camisetas de encontros, trilhas,
Jeep cross, calças com mil e um bolsos cheias de carrapicho?
Não sei, só sei que é assim que se vive
em uma casa nova.
Mas acima de tudo lá está ela , imponente,
em um local de destaque da casa: minha oficina-garagem construída
especialmente para receber você meu amigo, meu companheiro
de aventuras, fiz uma pintura radical baseado em você
ultrapassando todos os obstáculos, ficou lindo poder
ver sua figura estampada na parede, ver onde eu colocaria os
jogos de pneus, as ferramentas, as bancadas, o piso especial
para poder receber seu eterno vazamento, as marcas de pneu frontiera
iguais a pés de galinha marcando a cerâmica de
uma ponta à outra ás vezes cheio de barro, outras
lavado, polido e lubrificado, mas sempre lá, em sua toca,
em seu repouso.
Mas hoje seu lugar está tomado por coisas inservíveis,
virou depósito de bagulho, de coisas que só entulham
minha vida, das quais só me fazem ter más lembranças...
Tudo bem, mas o que tudo isso tem a ver com Jeep? Você
me pergunta. Eu te digo: - Meu fiel companheiro se foi, não
tenho mais aquele que eu tanto mexi, adaptei, soldei, cortei,
fiz SPOA, coloquei pneus Mud, macaco hi-lifty, quebra mato,
rádios PX, PY, GPS e tudo o que sempre desejei.
Depois de tanto carinho e cumplicidade eu tive que vender meu
Jeep , parece brincadeira, mas não é, tive que
entregar as chaves daquele que só eu dirigia, aliás
nem dirigia, ele é quem me levava para onde queria. Eu
apenas girava a chave e dava vida ao valente Jeep que me enchia
de orgulho ao passar garboso pelos obstáculos nas trilhas.
Obstáculos, muitos obstáculos em minha vida eu
não consegui transpor e como ela está sempre exigindo
prioridades, tive que me render ao capitalismo e me desfazer
de meus sonhos, ou de meus delírios vibrantes quando
aparecia algo novo para se fazer no Jeep.
Casa, faculdades, casamento, filhos, viagens, negócios
sempre há algo que em um momento ou outro exige que se
tenha algo para se dispor e utilizar o recurso em prol do que
é mais urgente e neste caso, meu bom e velho amigo Jeep
foi a bola da vez.
Foi embora, levando consigo parte da minha alegria, mas cabe
um alento, sempre poderei vê-lo fazendo a alegria de um
outro amigo jipeiro. Talvez pudesse até exagerar um pouco
dizendo que parte de mim se foi, mas não, essa parte
minha de ser jipeiro permanece, ainda vive e sempre será
o impulso para que um dia eu volte a sonhar com um novo amigo
que com certeza virá.
Vender o Jeep não significa necessariamente vender
sua alma Jipeira. Afinal, no fim de tudo ainda pode-se ser Co-piloto.
Zequinha nunca (risos).
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