"Argus"
por Celso
Travassos
Argus, o cão de Ulisses, da Odisséia?
Não. Meu cachorro. Um boxer de meia idade, como eu. Tigrado com os pelos do nariz já ficando brancos e os dentes de baixo aparecendo quando fecha a boca. Posso dizer que é um senhor educado e carinhoso. Herdado de um irmão, surgiu em minha vida quando ainda era um adolescente. Expulso da antiga casa por ter escolhido a roda traseira de uma Harley-Davidson de 1.500 cilindradas para “marcar” seu território.
Tornou-se um grande companheiro de todos da família. Acostumado a andar no banco da frente de uma caminhonete, tornou-se um passageiro exemplar.
Hoje é meu termômetro.
Toda vez que abaixo a capota do jipe, ele fica atento, com a orelha em pé – como se eu pegasse sua coleira...sabe que vai para o mato.
Durante vários dias da semana, utilizo meu velho Willys 58 para ir para o trabalho, deixando o 4 portas com direção hidráulica e ar condicionado para a patroa trabalhar e buscar os meninos no colégio. Às vezes, não raras, trabalho no sábado e domingo, relegando o passeio com o jeep para outro dia – acontece com a maioria de nós...
No princípio nada de mais acontece, abro a porta do jeep e ele levanta a orelha e se põe de pé. A medida que o tempo passa e se acumulam os finais de semana trabalhados, ele fica mais impaciente. Até que acontece: abro a porta do jeep para meu filho entrar e ele sobe e senta no banco dianteiro. Tenho que arrancá-lo de lá pela coleira e ele dá a volta e tenta subir de novo, até que o convenço pela força.
Pronto! Tocou o alarme! Ele está me dizedo que esgotei o limite e se não afundar o jipe na lama ou no pó, rápido – cancelando alguns compromissos inadiáveis como aniversários de sobrinhos e almoços na sogra – enlouquecerei.
Sábio Argus. É quinta-feira, ainda. Pego o telefone do escritório e ligo pro Zedú:
- Zé, o Argus tá sentado no banco do jipe, esperando...
A resposta vem imediata:
- Tô fichado!
Ôba! Mais um final-de-semana na Serra do Cipó, Rio do Peixe ou outra região que valha a pena.
Bom para a saúde, bom para o espírito, imprescindível para a alma.
Indispensável para a formação dos meninos.
Apesar da resistência inicial convencemos a patroa e a filha, percebemos no brilho do olhar, quando alcançamos a primeira subida de serra com o “mar de montanhas” descortinado no horizonte, que a prosposta tinha fundamento e vai fazer bem para elas também.
A cidade ficou para trás, com toda sua correria e compromissos.
Nos sentimos meio transgressores das regras.
A alma sorri.
Grande Argus.
Celso Travassos
celsotravassos@yahoo.com.br
Veja ainda:
"Foi bom tumém!" por Celso Travassos
"Arame, Durepóxi e Silver Tape" por Celso Travassos
"Moeda,
Itabirito e os pastel de angu" por Celso Travassos
"Pó"
por Celso Travassos
|
|