A emoção de navegar para o Campão Mundial
Reinaldo Varela
Por Francisco
Penteado
Quarta-Feira,
18 horas. Quando eu já me preparava para arrumar minhas
coisas, fechar o escritório e ir para casa, o telefone
toca. Nossa, imagino eu, será que é algum problema
a essa hora?
Além de trabalhar no Planeta Off-Road e participar de
rallys de velocidade e off-road, sou corretor de seguros. E
telefone tocando nesta hora, véspera de feriado, costuma
ser sinal de problemas. Como eu não iria participar desta
etapa da Copa Baja, resolvi fazer uma viagem com a família
para aproveitar o feriado. Passei uma boa parte da tarde pesquisando
na internet algum lugar interessante para ir neste feriado de
15 de novembro. Saí de casa às 16:00hs para dar
uma passada rápida no escritório e voltar logo
para arrumar as malas. E não queria que este telefonema
atrapalhasse meus planos e o de minha família.
Atendo e uma voz conhecida do outro lado, do Eduardo Zenóbio,
me pergunta:
- Chico, você sabe navegar off-road?
Claro que ele sabe que eu sei. Já participei de dois
rallys dos Sertões além de algumas etapas da Copa
Baja deste ano. Creio que perguntou mais por desencargo de consciência
para ter a confirmação por mim das respostas.
- Claro que sei!
- Vai participar da Copa Baja em Santa Luzia?
- Não, eu vou viajar.
-Tem um piloto amigo meu que vai participar e precisa de navegador.
Quer navegar para ele?
- Pode ser, mas quem é ele?
- É o Reinaldo Varela. Acabou de me ligar e resolveu
de última hora participar desta prova e está precisando
de um navegador. Você quer navegar para ele?
Queria nesta hora estar me filmando ou ter tirado uma foto minha.
Perdi a voz, engasguei, fiquei meio tonto. Nem sei direito qual
foi minha reação. Claro que respondi que sim.
Uma oportunidade como esta não é sempre que aparece
e não podia desperdiçá-la, mesmo sabendo
de toda responsabilidade.
- Liga então para ele que está esperando um telefonema
neste momento.
Na mesma hora liguei e combinei algumas coisas com o Varela.
Ele iria sair dentro de alguns minutos de São Paulo e
viria rodando com seu carro. Combinamos de nos encontrar logo
cedo pela manhã para irmos ao local do parque fechado
da prova para fazermos a vistoria. Ele pediu também para
eu conseguir um hodômetro pois somente está com
um no carro e normalmente utiliza dois. Penso comigo, onde arrumaria
um hodômetro nesta hora? Mas respondo que iria tentar.
Agora o problema era falar em casa que não iria mais
viajar. Neste mesmo instante minha esposa me liga, e eu ainda
meio atônito, falo que não posso conversar pois
estava muito ocupado no momento tentando conseguir um hodômetro
emprestado. Logo em seguida eu ligo novamente para falar outras
coisas e ela me pergunta sobre a viagem. Eu respondo rapidamente
" Eliana, não vai mais dar para viajar. Vou ter
que participar da prova de Santa Luzia e estou sem tempo agora
para te explicar mas logo que chegar em casa eu te conto tudo".
E desligo o telefone. Claro que ela não ficou satisfeita
mas iria entender. Bom, pelo menos pensei assim... Deste modo
este problema de avisar para ela estava parcialmente resolvido,
pelo menos até colocar os pés em casa.
Chego em casa e começo a preparar meu kit navegador.
Separo cronômetro, relógio, caderno, estojo com
várias canetas coloridas, lápis, borracha, estilete,
apontador. Também separo a roupa, macacão, balaclava
e sapatilha anti-chama. E penso comigo: "- Como ele resolveu
de última hora, não deve ter separado cinta para
reboque, ferramentas, calibrador de pneu, pá para o caso
de atolar, estojo de primeiros socorros e o pano vermelho para
sinalizar em caso de acidente grave". Separo tudo isto
e logo o telefone toca:
- Francisco, já estou na estrada. Você tem cinta
de reboque?
- Já separei.
- E uma pá?
- Já separei.
- E o hodômetro?
- Já consegui com um amigo que irá me emprestar.
- Então amanhã cedo nos encontramos no hotel.
Após conseguir arrumar tudo e por a cabeça em
ordem deito tarde, morrendo de sono, para não ter que
ficar rolando na cama, pensando no dia seguinte.
Logo cedo o telefone toca:
- Francisco, já estou aqui em BH. Tenta conseguir também
um rádio PY emprestado pois o nosso não está
funcionando. Instalei no carro na última hora e ele não
ligou. Que horas você passa aqui?
- Logo mais. É só eu encontrar com o Cleso. Ele
vai junto.
- O Cleso dentista que corre de rally de velocidade?
- Ele mesmo. Estou navegando para ele no campeonato mineiro.
- Legal que ele também vai até o parque conosco!
Sinto sua confiança em mim crescer um pouco ao citar
um amigo em comum. Apesar das referências que foram passadas
para o Varela, ele não tem nenhuma referência de
como navego.
Nos encontramos e rumamos para o parque fechado em Santa Luzia.
Chegando lá. Damos uma última verificada no carro
e dirijo-me com ele para fazer a vistoria. Carro vistoriado
e adesivado e cadê o Varela? Ele tinha ido fazer o reconhecimento
a pé na pista que serviria de tomada de tempo. Chega
com o levantamento pronto, me entrega e fala que é preciso
passar a limpo e checar na volta de reconhecimento que iríamos
dar antes da largada.
Chegou
a hora do reconhecimento. Entramos no carro vamos chegando todas
as anotações feitas por ele. Algumas outras anotações
são feitas e agora é só esperar. Iríamos
ser o 7 a largar. Vemos alguns pilotos voando baixo, casos do
Édio, Ulysses Bertholdo e do Spinelli, apesar de um toque
no barranco. É a nossa vez. A expectativa em mim cresce.
Estamos prontos e largamos. Vou falando para ele: -" Reta
no visual e logo após um subida. Curva para para a esquerda
no alto(E2) e em seguida para a direita (D2)..." Calo-me
neste instante. Na saída da primeira curva para a esquerda,
a frente do carro escapa e o carro embica para o morro, descendo.
O Varela reclama que não podia ter errado esta curva
e começa a descer o morro, tentando achar um local para
retornar. A platéia toda vai ao delírio mas também
fica preocupada. Dentro do carro a situação estava
sob controle mas para quem estava fora, a impressão é
de que o carro iria rolar morro abaixo, tal a inclinação
do mesmo. Apesar de estar sob controle, penso comigo: "
Será que a história vai se repetir mais uma vez?"
É que em outras provas, eu já havia participado
de duas capotagens e de algumas batidas... Mas com calma ele
encontra o caminho e volta a pista, ficando ainda em 25º
lugar entre 36 pilotos.
1º dia de prova
Estamos prontos para largar. Todos instrumentos checados e aguardamos
nossa hora. A planilha já estava toda estudada com diversas
anotações para facilitar minha navegação.
Subimos a rampa, zero os hodômetros e zero o GPS. Que
azar! O GPS travou e não quer zerar. Justo agora!!! Mas
não faz mal, ainda tenho os hodômetros. Largamos
e a primeira referência da planilha fica a 200m. Como
os hodômetros não estão aferidos vamos no
visual mas esta referência estava errada. Comecei bem.
GPS travado e planilha que não bate e eu ali ao lado
de um campeão mundial tendo a responsabilidade de navegar
para ele.
É aqui que o campeão começa a aparecer.
Ele me acalma e fala para irmos no visual, tentando nos localizar
na planilha. Eu também já conhecia este trecho
inicial então foi tranquilo me encontrar. Sorte, pois
em um trecho desconhecido seria muito mais complicado para mim.
Chegamos em uma estrada de terra. Paramos o carro, ligamos a
roda livre e vejo o Varela colocando as luvas e o capacete.
Faço o mesmo e penso comigo: "É agora que
realmente vai começar!" Hodômetro principal
aferido e novamente zerado. Eu relutava em aferir o segundo
hodômetro pois era um modelo que eu nunca havia utilizado.
Eu também nunca havia navegado com dois hodômetros
mas o Varela insiste e aferimos este também. No caminho
ele me explica como navegar com dois hodômetros e na prova
isto é de grande valia. Mas uma lição de
quem conhece...
Sua direção neste trecho de deslocamento é
rápida porém firme e segura, sem cometer nenhum
erro ou imprudência. Cada vez mais sinto que estou ao
lado de um campeão.
Vamos conversando e ele sempre tentando passar muita tranquilidade
para mim. Em dado momento ele fala que preciso ficar atento
a sua maneira de dirigir. Cita que às vezes a atenção
do piloto começa a cair e sua velocidade diminuir. Nesta
hora ele precisa de um incentivo, alguém que o acorde,
mandando dirigir mais rápido. Penso comigo, "mas
eu mandando o Varela correr mais! Mas se ele falou tentarei
fazer assim..." Aqui novamente o espírito do campeão
se faz presente. Mesmo após quase 20 anos de rally e
sendo um dos principais pilotos nacionais nesta modalidade,
pede para seu navegador com pouco mais de um ano de experiência
e com quem começava a andar a poucos instantes a incentivá-lo
a andar mais rápido quando este achasse necessário.
Chegamos ao local da largada da especial. A adrenalina estava
a mil e não via a hora de começar a prova realmente.
Começa a contagem e largamos. Agora o sonho se tornava
realidade e eu estava realmente ao lado do Varela, navegando
para ele e com a responsabilidade de sentar na cadeira do Fadigatti,
um de nossos principais navegadores.
Fico atento na planilha. As referências vão passando
e a planilha batendo em cima. Começo a ficar mais seguro
e vou me soltando. Começo a cantar regressivamente, informando
a cada 100 metros a distância que falta para chegar na
próxima referência. A pista escolhida para este
trecho não nos ajuda. Estava muito lisa e com muito barro
e lama e não estávamos com pneus adequados a este
tipo de piso. Muitas vezes éramos passageiros do veículo
mas não chegamos a passar nenhum susto. Terminamos esta
especial em 11º lugar. A mesma classificação
tivemos na especial seguinte, mas poderia ter sido melhor. A
10km do final da especial, nossa caixa de transferência
quebrou e andamos este último trecho somente com a tração
traseira. O cardã dianteiro vinha batendo, fazendo muito
barulho e isto atrapalhou bastante. Este trecho era um trecho
rápido, mas com os problemas do carro não desenvolvemos
a velocidade normal e viemos poupando. Pena, pois se não
fosse isso, certamente estaríamos melhor classificados.
Terminamos o dia em 11º na geral e em 8º na categoria.
Bom para uma estréia nestas condições mas
pouco para o potencial do Varela.
2º dia de prova
Este dia prometia ser melhor para nós. Largaríamos
na 11ª posição e não teríamos
que nos preocupar muito com ultrapassagens, pelo menos no início
da prova. O dia seria formado por duas longas especiais e duas
curtas, sendo que a última destas acabou sendo cancelada.
A primeira era na Serra da Canastra, em um tipo de piso muito
semelhante ao que ele encontrou nas provas do campeonato mundial.
O dia começou cedo pois teríamos pela frente um
deslocamento de 320km até chegarmos no início
da primeira especial. Como estava em Belo Horizonte, onde resido,
dormi a noite anterior em casa. É muito estranha esta
sensação de estar participando de uma competição
destas e dormir em casa, ao lado da família e longe do
piloto. A sensação que tenho, principalmente pelo
fato do trecho do dia anterior ter sido realizado em muito barro
e lama, é que passei o dia fazendo uma trilha e voltei
ao final para casa, pronto para mais uma. A diferença
é que esta "trilha" foi feita ao lado do campeão
mundial de Cross-Country e em altas velocidades onde o terreno
permitia.
Hora da largada e a expectativa novamente era grande. Largamos
e logo na primeira subida a temperatura do carro chega a 105º.
Aqui ficava definido que nosso acelerador seria o termômetro.
Foi uma pena, pois neste tipo de piso o Varela se sente em casa.
A paisagem da Canastra é linda, mas requer muita atenção.
São muitas erosões, pedras, buracos e barrancos
que passam por nós a todo instante. Qualquer vacilo pode
ser fatal.
A planilha novamente está muito boa até chegar
a uma alteração que teve que ser feita no dia
anterior por causa das chuvas. Neste momento, informo ao Varela
para ficar atento pois não sabia se as referências
iriam bater com o hodômetro e a próxima estaria
somente a 2,5km. Mais uma vez vejo como um campeão se
comporta nesta situação. Diminuiu o rítmo
e me ajudou a navegar, procurando a referência. Não
estamos perdidos porém atentos pois podem haver erros.
Encontramos a referência e ficamos atentos até
a próxima que também bate. Neste momento informo
para ele que a navegação está novamente
na minha mão e que ele somente tem que dirigir e terminamos
a prova sem nenhum outro problema a não ser o da temperatura
que ocorreu no início e limitou nosso rítmo. Terminamos
esta especial em 16º na geral e em 9º na nossa categoria.
Chegamos a cidade de Cássia e uma festa nos aguardava
no ginásio de esportes. O tempo começou a fechar
e o Varela me pergunta se devemos ou não trocar o pneu.
Outra responsabilidade que ele divide comigo. A poucos minutos
da largada, decidimos trocar e foi a descisão mais acertada
que tomamos. Logo partiremos para uma especial curta, de 5 km,
mas muito técnica que mescla lama, barro, grama, terra
batida e asfalto neste pequeno percurso. E a chuva começa
a cair logo na hora da largada. Não fizemos um bom tempo
mas nada que nos comprometesse em função do pequeno
trecho e logo nos deslocamos para a última especial.
No
deslocamento, lembramos do fato de que havíamos trocado
os pneus e teríamos que aferir novamente os hodômetros,
mas não havia mais tempo e nem referências suficientes
para isso. Fiz uma breve aferição com os dados
que dispunha e partimos debaixo de chuva para o último
trecho da prova. Apesar do problema com o hodômetro, a
planilha batia mas não estava tão exata como no
dia anterior o que me deixou muito mais atento e preocupado.
E novamente haveriam alterações que a tornariam
mais imprecisa. De qualquer maneira, conseguimos neste trecho
andar bem, sem passar nenhum susto e terminamos esta especial
com o 4º tempo geral. No final do dia acabamos na 9º
colocação geral e 7º na categoria. Nada mal
para os problemas que tivémos com o carro na primeira
especial.
Durante e após esta prova, muitos amigos me perguntaram
se é muito emocionante correr ao lado de um campeão.
Sempre respondi que durante a prova não tive emoções.
Ele corre onde o terreno permite e anda devagar onde o terreno
exige. Se precisar, até pára e engata a primeira
marcha para passar em um buraco ou erosão. O carro vem
sempre na mão e desta forma não há emoções
fortes, ou melhor, sustos. Mesmo quando está rápido,
tem total domínio do carro e da situação.
Pensando assim, não tive emoções. Mas se
pensar de outra forma, é muito emocionante estar correndo
ao lado de um campeão mundial. E pensar que fui o primeiro
após a conquista deste feito a emoção é
maior ainda!!! |
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