No mundial não tem moleza!
por Alberto
Fadigatti
Nossa
participação efetiva no Mundial de Cross-Country
teve início na Itália, onde fomos para participar
do Baja Itália. Esta prova consistia em 3 voltas de 400
km em um mesmo percurso no primeiro dia e mais duas voltas no
segundo dia, com uma outra etapa menor. Este Baja Itália
é uma prova que nós brasileiros nunca vimos e
nem imaginamos. Consiste em ficar andando em um leito de rio
parcialmente seco, com o fundo totalmente cheio de pedras, até
quebrarmos. Este é o espírito da prova. Trata-se
de uma prova off-road muito bem feita, só que de uma
agressividade nunca vista. Estávamos muito bem até
que quebrou a barra de direção e caímos
para o quarto lugar, o que acredito eu foi uma sorte, pois estávamos
com uma vantagem muito grande sobre o quinto colocado. Foi,
sem sombra de dúvida, a maior sorte termos conseguido
chegar ao final da especial com a barra de direção
quebrada e não sermos penalizados.
Sorte à parte, o Varela voltou ao Brasil e eu e o Jean,
que é nosso mecânico, colocamos o carro no caminhão
de apoio e fomos para a França, mais precisamente para
Nice, pois seriam lá o prólogo classificatório
e a largada do Rally da Tunísia. Neste espaço
de tempo, tínhamos que conseguir uma oficina para revisarmos
o Troller e, graças ao motorista do caminhão,
que tinha contato com um amigo na França, conseguimos
arrumar um espaço em uma oficina em Cagnes Sur Mer, que
fica a 12 km de Nice, ou seja, praticamente em Nice, pois não
existe separação entre Nice, Cagnes Sur Mer, Mônaco,
Cannes etc.
Quando chegamos à oficina, o dia já estava amanhecendo
e aí é que ficamos sabendo que a oficina era de
Jean-Louis Lartigue. Para quem não conhece, Jean-Louis
era piloto de rally e é irmão de Pierre Lartigue,
4 vezes vencedor do Rally Paris-Dakar, 4 vezes Campeão
do Mundo de Rally Cross-Contry e 8 vezes vencedor do Rally da
Tunísia. Estávamos em casa. Durante os 15 dias
que estivemos em Nice, o proprietário da oficina, Jean-Louis,
foi de uma hospitalidade inigualável. Mesmo sem nos conhecer,
colocou tudo em nossas mãos, ajudando-nos a comprar o
necessário. Enfim, foi espetacular trabalhar com um profissional
competentíssimo.
Preparação
à parte, fomos para o prólogo com o número
290, tendo atrás de nós somente o numero 291.
Portanto, a penúltima dupla a fazer o prólogo.
Pista esburacada, terra fofa, muita poeira e obtivemos, se não
estou enganado, a 15ª posição. Embarcamos,
após o prólogo, no navio Napoleão Bonaparte,
que por sinal é enorme, rumo a Tunis, capital da Tunísia.
A travessia no navio durou aproximadamente 20 horas, com a nossa
chegada por volta das 4 horas da tarde. Deslocamos por 500 km
para, no outro dia, iniciarmos a competição.
Dos nossos concorrentes, em número de 11, conhecíamos
alguns, mas desconhecíamos os piores e mais potentes.
Fizemos as especiais, como todos viram, com um cuidado enorme,
pois tínhamos somente um mecânico e poucas peças
de reposição. Não podíamos quebrar,
pois na chegada das especiais o Varela tinha que ajudar e Jean
na parte de mecânica, pois eu não sei muita coisa
e sirvo somente de ajudante de mecânico. O trabalho foi
muito duro após todas as especiais; nossa sorte é
que sempre (na maiorias das vezes) estávamos bem classificados
e largávamos cedo, chegando tembém muito cedo,
o que dava tempo de tomar um banho - embora para mim sempre
a água estivesse muito fria, coisa que não acontecia
com o Varela. Para ele a água estava sempre quente; não
sei o que acontecia, mas acontecia.
Com as especiais muito duras e difíceis, o cansaço
era enorme e a nossa ida para a cama (sempre em acampamento)
acontecia logo após o briefing, por volta das 22 horas.
Fomos nesta tocada, tentando ganhar todas as especiais, até
termos problema com o nosso tanque de combustível,
que sofreu uma batida e quebrou o suporte de alimentação.
Por sorte, o Varela notou no marcador de combustível
a rápida diminuição acusada pelo ponteiro
e parou para ver o que estava acontecendo. Desastre total para
mim que vi a viola em caco. Achei que não teria mais
conserto, pois todo o combustível esta caindo no chão.
A solução bem engendrada pelo Varela deu certo:
começamos a subir o carro no macaco e calçá-lo
com pedras sob o pneu, até a inclinação
fazer com que o Diesel parasse de vazar. Feito isso, que durou
aproximadamente uma hora, levamos mais 30 minutos para reestabelecer
a ligação e colocar o Troller novamente em movimento.
A sensação de derrota, perda, aliada à
visão de ver a vitória escapar pelo meio dos dedos
erra terrível. Tínhamos lutado, nunca imaginando
que aquilo, uma pedrinha, tinha nos tirado fora da primeira
tentativa de vencermos uma categoria do Mundial. Foi desanimador,
pois quando conseguimos chegar ao final da especial, ficamos
sabendo que o segundo colocado tinha sobre nós uma vantagem
de mais de duas horas. Bem; desânimo à parte, iniciamos
e completamos a revisão do Troller e fomos dormir conformados
com o segundo lugar, isso se tudo corresse bem nas duas especiais
que ainda faltavam.
Durante
estas noites todas, encontramos pelo deserto uma população
enorme de escorpiões em todos os acampamentos, pois nesta
região do Saara eles são a maioria e chegamos
a ver 6 ou 7 por noite. Como em todas as noites, tomei todas
as precauções para não dormir com um em
minha barraca: bati bem meu colchonete, saco de dormir e tudo
o mais que coloquei na tenda. Entrei, tirei o macacão,
entrei no saco de dormir e dormi a noite toda, sem saber que
estava dormindo com o inimigo. Pela manhã, levantei,
vesti o macacão, desarmei a barraca e levei a maior ferroada
do século. Achei na hora que era um escorpião,
tirei a manga do braço direito e vi lá dentro
o safado em forma de anzol. Segurei nas duas extremidades da
manga do macacão e falei para o Jean ir comigo ao médico,
pois o escorpião tinha me picado. A princípio,
todos ali pensaram que era brincadeira, mas o Jean perguntou-me
se era verdade e diante de minha afirmativa foi comigo ate o
helicóptero médico, onde relatei que tinha sido
picado pelo escorpião e perguntei o que deveria fazer,
ou melhor, o que eles poderiam fazer por mim. Fui conduzido
pela médica até o helicóptero mais próximo,
medicado com soro, antibiótico, antialérgico e
outras coisas mais, ficando ali por aproximadamente uma hora.
Como iria largar para a especial somente às 9h30, o médico
disse-me que iria ter muito sono devido à grande quantidede
de analgésico e outros medicamentos e avisou ao Varela
que teria que jogar água no meu rosto para me acordar.
Estávamos deprimidos pelo acorrido no tanque no dia anterior,
mais a picada do escorpião nesta manhã, que daria
origem a uma moleza com sono, estávamos perdidos e sem
chance de recuperação.
Largamos quase no final do grupo e depois de 26 km, exatamente
na distância que tivemos problema com o tanque no dia
anterior, estava parado nosso principal adversário -
o carro 230 - o que era muito bom para nós. Havia uma
pessoa embaixo do carro tentando arrumar; isto significava que
o problema deveria ser sério e que nossas chances voltaram
a existir. Aceleramos o máximo possível para tentar
aumentar a distância que nos separava e ao final da especial
corri até o controle de cronometragem para notificar
o posicionamento de onde ele estava quebrado e saber se ele
ainda estava com problema, pois queria que ele chegasse ao final
com um minuto a mais da diferença que nos separava. Fiquei
sabendo que ele tinha conseguido chegar até o Controle
de Passagem 2 e que tinha abandonado por quebra da embreagem.
Líder, a mais de 5 horas do segundo colocado, partimos
para a terceira e última especial de 100 km, a menor
de todas as especiais, com o coração na mão,
e forami talvez os piores 100 km de rally que já fiz:
não via a hora de receber a bandeirada e soltar um grito
de alegria, pois nunca tinha vencido antes uma prova do Mundial
e nunca tinha ficado líder do Campeonato Mundial de Rally
Croos-Country.
A sorte foi fator fundamental em nossa vitória, mas o
Varela tem grande parte nisto, pois não desistiu onde
eu achei que tudo estava perdido. Parabéns a ele por
ter acreditado e ter trazido esta vitória para nós
e para o Brasil. |
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