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Gato no queijo
Por: Decio Pedroso

Dia desses, estava eu, como sempre faço, trabalhando arduamente nas suntuosas instalações dos escritórios da Chame Help, quando recebi um e-mail do Parmesão com o Subject "Raid".

Antes mesmo de abri-lo, já outro surgia em meu Inbox: "Raid - Vamos?", vindo naturalmente, do mesmo remetente. Enquanto movia-me em direção ao mouse para saber que diabos estava acontecendo, eis que toca também meu celular. E não era outro senão meu velho amigo, aflito, aflitíssimo:

- E então? Por que não responde meus e-mails? Vamos correr nesse fim de semana? Vamos? Diz que sim, vai, por favor!

Parmesão, para quem não liga o nome à pessoa, é figura bastante conhecida entre as Copas Sudeste e Vale Raid, tanto por seus repetidos bons resultados, quanto pelas vezes em que terminou suas provas de rodas pro ar, ou mesmo sem uma ou duas delas.

Seu apelido deveu-se a um lendário Niva que ele possuía, com duas enormes faixas azuis percorrendo todo o pobre carrinho em seu sentido longitudinal. Mais pra frente adquiriu um belo Engesa, mas o nome ficou.

Seu último feito fora tombar para dentro de um rio durante a última prova de que participara. Molhou, quase afogou e deu enorme susto em sua esposa, navegadora e candidata a Santa Padroeira dos Jipeiros.

Se disserem que ela se negou a participar desse novo raid por receio de terminar mais uma prova de rodas pra cima em um rio qualquer, sou obrigado a negar. Soube de fontes as mais fidedignas, que ela não poderia participar da competição em virtude de um inesperado e irrecusável convite que recebera da Liga das Senhoras Católicas, para participar de um chá beneficente. Justamente no dia seguinte em que Parmesão falara-lhe sobre esse raid, vejam vocês!

E assim, encontrando-se nosso herói subitamente sem sua habitual navegadora, recorreu ele a esta minha pessoa, já que outro não se atreveria.

Assim, sob tanta insistência, por causa de tamanha aflição que, em consideração aos muitos anos de nossa amizade, e sem dispor de qualquer convite das Senhoras Católicas, não pude recusar-me a ir.

O Parmesão ficou que era uma felicidade só:

- Obrigado, obrigado! Puxa! Você não vai se arrepender!!! - dizia a criança.

Não tinha mais jeito. Agora era rezar para algum santo, ou apelar para outros expedientes místicos que pudessem manter o chão sempre sob o carro e nunca sobre nossas cabeças, ou do que delas sobrasse.

"Murphy" - considerava - "era Zequinha cativo daquele Engesa!"

Mas ora! Era exatamente Murphy que nos protegeria! Quem não se lembrava de seus dois principais corolários, do gato e do pão com geléia?

Segundo estes, um pão cai sempre com a geléia voltada para o chão - especialmente se o carpete é caro e felpudo. Já por outro lado, é sabidamente conhecido que os gatos caem sempre com as patas para baixo. Havia então quem afirmasse que, um gato com uma fatia de pão com geléia atado às costas, tenderia a flutuar, tal o equilíbrio das forças contra-postas.

E em assim sendo, tratei logo de arranjar um gato, cola, muito pão e muita geléia.

Bom, ficamos de nos encontrar em minha casa já no sábado, dia do raid, às 5h00, pois sendo este em outra cidade, teríamos ainda 1h30 de viagem até lá.

Coloquei-me então à sua espera na calçada, desde as 4h45. Às 5h30, sem notícia nenhuma do Parmesão, dei como certa a sua desistência. Quando me preparava para recolher o gato, os pães, geléias e demais traquitanas que se leva habitualmente para um raid, vejo dobrar a esquina um treminhão, daqueles que se usa no interior pra puxar cana, sabe?

Olhei melhor vi que era o Parmesão conduzindo um estranho comboio: uma L-200 vinha arrastando e sendo arrastada pelo Capotão, digo, Engesão. E com a maior cara de pau, o mentecapto abaixa o vidro (insufilmado, como carro de boy) e pergunta:

- Pronto?

Tive que engolir todos os impropérios que vieram à minha boca no intuito de não acordar o restante de meus vizinhos que ainda dormia. Boa parte deles, na verdade já havia acordado com o suave arrastar dos pneus traseiros da L-200 ao dobrar a esquina sendo empurrada pela frente do Engesa, que teimava em seguir reto.

Contentei-me simplesmente em pegar minhas coisas - entre elas, como se sabe: o gato, os pães e a geléia - e instalei-me a bordo.

Justiça seja feita, nunca havia ido a um raid com tanto conforto: bancos de couro, "somsão" (apesar dos pagodes a que fui submetido), ar condicionado e, nas retas, quando os pneus traseiros da pobre camionete não estavam sendo arrastados de um lado para outro, até se podia conversar em seu interior.

Depois de conseguir aplacar um pouco toda a empolgação efervescente de nosso amigo Parmesão, pude concentrar-me em conhecer o Colosso que iríamos utilizar, equipamento ainda novo para mim, que sempre usei o modelo anterior.

Havia muitos novos recursos e procurei discutir minhas impressões com seu proprietário, pedindo-lhe sua opinião sobre esse ou aquele detalhe. A cada pergunta minha, ele fazia menção de pegar o celular, olhava o relógio e logo desistia de ligar para sua esposa, provavelmente lembrando de sua doce despedida enquanto ressonava:

- E não me dê sinal de vida até 5 min antes da largada, está ouvindo? EU QUERO DORMIR!

Bom, diante disso, resolvi então consultar o manual, que como todos sabem, desde há muito, é cuidadosamente redigido pelo próprio Peninha e traz tudo o que se precisa saber para a boa utilização de seus produtos.

Mas ai! Pobre de mim! Aquilo que o Parmesão retirou de sua bolsa parecia vir do naufrágio do Titanic! Era mais um amontoado de papel-machê, fortemente unido com uma liga de barro e escamas de lambari, naturalmente colhidas em sua última aventura sub-fluvial, se é que existe esse termo.

Com as pontas dos dedos consegui ir separando as páginas, recuperando essa ou aquela letra que tentava fugir daquela maçaroca. Pude então entender o suficiente do referido aparelho para assegurar-me que as poucas noções que o Parmesão havia me passado com uma certeza grega, estavam inexoravelmente erradas.

Chegávamos finalmente a nosso destino.

Não vou aqui aborrecer meus leitores com os detalhes da largada, que de resto foi igual a qualquer outra largada de raid. Apenas antes de passarmos à prova propriamente dita, quero contar-lhes quais foram minhas providências pessoais para incrementar nossas chances de chegar ao fim da prova com as rodas do veículo abaixo de nossa linha de cintura.

Peguei o gato, saudável espécime da cor parda, e untei-lhe cada uma das patinhas com uma generosa camada de Super-Bonder. Em seguida, soltei-o no ar, um palmo acima da capota do Engesão.

Como que comprovando que os gatos caem sempre em pé, o bichano ficou solidamente fixado à carroceria do referido veículo, deste passando a fazer parte integrante.

Em seguida, com uma faca de serra, um saco de pães e vários potes de geléia, passei à parte inferior do veículo (no caso DESTE veículo, entende-se por parte inferior, aquela que foi originalmente concebida para sê-lo). Cortei então inúmeras fatias de pão, passando larga porção de geléia em cada uma delas e fixando-as em seguida sob o chassi, tendo o cuidado de faze-o sempre com a geléia voltada para baixo.

Foi difícil nesse ponto afugentar os cachorros, que passaram a cercar o jipe, ora enfiando gulosos focinhos e línguas sob a viatura, ora atirando-se com dentes à mostra sobre o indefeso gato.

Este coitado, em verdade protestava um pouco, especialmente quando sua cauda, por descuido certamente dele próprio, acabou se fixando também à capota do veículo, por causa de algum pingo de cola que inadvertidamente sobrou por ali.

No entanto, tudo ficou significativamente mais calmo ao lançarmo-nos à prova.

Aferi nosso colosso durante o deslocamento inicial e logo chegamos ao primeiro trecho navegado.

Esperamos dar nosso tempo, largamos e seguimos bem, ainda nos acostumando um com o jeito de navegar/pilotar do outro. Lá pelas tantas, o Parmesão me solta essa:

- Olha, Decio, eu não entendo bem desse negócio aí que você fala de esquerda e direita, sabe? Então por que você não usa "meu lado" e "seu lado", tá bom?

Nem escondeu o sorriso amarelo! Vou escrever ao Papa: sua esposa precisa no mínimo de uma beatificação imediata!

Mas apesar dos pesares, não íamos de todo o mal. Perdemos tempo numa pegadinha que envolvia umas voltas numa pedreira. A experiência do Parmesão no local foi definitiva para decifrar rapidamente os laceios pretendidos pela Organização, através daqueles garranchos praticamente indecifráveis.

Já no quadro seguinte, nos demos bem mal: a planilha mandava contornar um lago, que na verdade era uma poça grande de água suja. Tentamos de um lado, tentamos de outro e nada batia.

Metemo-nos em uma trilha sem saída e tivemos que voltar de ré. Como última alternativa, atiramo-nos lago adentro, rasgando-lhe pelo meio e descobrimos o caminho correto. Parece que "contornar", no linguajar local é na verdade "tornar com" ou "entornar", não sei. Mas foi o que fizemos.

Três minutos de atraso e o motorsão do Engesa falou alto. Aí  já não importavam mais as velocidades médias. Importava-nos apenas o tempo e manter-nos com as rodas para baixo, se possível!

E quanto mais o motor rugia, mais o gato na capota miava apavorado! Bom, sinal que ainda vivia o bichano. E haja pernas pra manter pra baixo! E haja geléia nesse pão, meu amigo!

As curvas passavam por nós e sumiam tão rapidamente quanto chegavam. As lombadas, as curvas-de-nível nos canaviais, as árvores, os Willys, as pedras, tudo passava zunindo!

Mas valeu! O binômio gato/geléia mostrou sua força e logo, logo a paz voltava a reinar naquele jipe, com o tempo zeradinho até nos décimos.

E como é já tradicional nos raids daquela cidade, entramos e seguimos por dentro de vários rios. Por leitos de pedra e de barro, nada nos detinha.

Nada? E o que dizer de uma parede de barro a uns 45 graus, que era a barranca do rio? Atacamos uma, duas vezes, mas o peito de aço e o guincho pegavam na frente e não nos deixava prosseguir. Os jipes que nos precederam tinham mesmo feito um bom serviço comendo aquela passagem.

Então um cabo de aço nos foi estendido e aguardamos pelo lento tracionar de um guincho qualquer que estava fora do nosso ângulo de visão.

Só que de repente, ao invés da leve tração, sentimos foi uma puxada forte e brusca, que arrancou o Engesa daquela pirambeira como se fôssemos de papel. E com a mesma rapidez, o pessoal do apoio nos livrou do cabo e pudemos arrancar atrás de nossos preciosos segundos perdidos.

Ao avançar, divisamos um poderoso Unimog, responsável pela façanha. Caramba! Fiquei impressionado.

Mais pra frente, o Neutral do almoço e as mentiras de praxe:

- Eu passei direto em tudo! Meu Engesa é ANIMAL!!! - vangloriava-se o Parmesão balançando a genitália, enquanto enfiava a cara num enorme hot-dog que havia feito de próprio punho.

Terminado aquele show de horror à que todos os participantes da Copa Sudeste já estão acostumados, iniciamos nosso deslocamento da segunda metade da prova.

Mal chegando ao início do trecho navegado, e com tempo sobrando, o Parmesão, que parece que tem furúnculo, ou bicho carpinteiro - como se dizia - mal parou o jipe, desceu para dedicar-se a seu passa-tempo preferido: contar vantagem e coçar o saco.

Após revisar metodicamente os instrumentos, conferir nossa posição na planilha e pegar uma Coca, juntei-me à rodinha com ele e outros competidores.

Deixei-me ficar por ali, só me afastando no momento preciso de voltar à prova, quando então bati no ombro do Parmesão e chamei:

- Vam'bora, motorista, que está dando nosso tempo.

Mas tão empolgado estava com as mentiras que contava - e que pior: ele mesmo passa a acreditar - que não me ouviu ou assim fez que.

Já eu, cônscio de meus deveres de navegador, a poucos segundos de nossa largada informei:

- Faltam 5 segundos!

Virei pro lado e nada! Nada de nada!

Soltem os cintos, o piloto sumiu!

E foi o que fiz: estendi metade de meu corpo pela janela e gentilmente informei, a plenos pulmões:

- VAM'BORA, SEU B*&@!!! 'CE TÁ ATRASADO PRA LARGAR!!!

Só assim ele se pôs a galope em direção ao jipe. E teve que levar na garupa dois ou três gentis participantes que, vendo seu desespero, não se contiveram em tentar impedir que nosso herói alçasse seu objetivo.

Não fosse meu desespero ouvindo o computador bipar tresloucadamente, e eu teria morrido de rir ao ver a cena: ele vinha trazendo dois ou três a reboque, distribuindo cotoveladas e safanões a granel enquanto buscava abrir a porta.

Aquele raid tinha virado a própria ZONA!

Mas três morridas de motor depois e o Engesão se punha em movimento novamente, sendo que, em pouco tempo restabelecíamos nossa precisão suíça, recuperando 100% de nosso atraso. Gato e geléia OK.

Ainda que os mais críticos possam declarar que eu tenha cometido um ou dois erros durante toda a prova, nenhum deles teve maior repercussão, ainda que devido às prontas respostas do motorista, sempre que necessário, e desde que este se encontrasse no interior da viatura em que viajávamos.

De qualquer forma, seguíamos com nossa boa performance, apesar das agruras do caminho. E tome mais rio! Lá fomos nós novamente rio adentro, saltando sobre pedras, onde à primeira vista, nenhum carro passaria.

Mas nada parecia nos segurar! O Engesão seguia firme sobre as pedras até que... Até que vimos um longo comboio de jipes à nossa frente. Pelo que soubemos, um Samurai teve seu pneu destalonado ao subir a barranca do rio, e ficou por lá, retido por um bom tempo. Devido às margens altas, era impossível desviar, e amargamos no local por quase 9 minutos.

Ao subirmos finalmente a margem, um nosso amigo e competidor na mesma categoria, punha-se como sindicalista em porta de fábrica, convocando-nos todos a reivindicar um neutral extra de 15 min.

Segundo argumentava, e todos concordamos, isso seria muito mais sensato do que lançar mais de 30 jipes em uma disparada louca, tentando recuperar um atraso de mais de 10 minutos.

Havia ali um representante da organização da prova prestando apoio, que de pronto concordou com nossa pertinente reivindicação e incumbiu-se da avisar tanto os demais competidores que ainda chegariam, como também a própria Organização sobre esse novo neutral.

Inseri a nova informação em nosso computador de bordo, aguardamos nosso novo horário ideal (dessa vez segurei o Parmesão dentro do jipe) e partimos rumo ao final.

Bom, ocorre que - como soubemos depois - parece que o dito representante da Organização ficou tão preocupado em dar ciência ao Diretor de Prova sobre a mudança ocorrida que, na primeira oportunidade, mandou-se do local em direção ao restaurante de chegada.

Os jipes que por ali chegaram depois disso, sem apoio para sair do rio e sem a informação sobre a criação do novo neutral, foram largados à sua própria sorte.

Não é preciso dizer que na chegada, quando os últimos competidores confraternizaram com os demais, a confusão estava armada. Pois como é que seriam apurados os resultados, se por conta de falta de informação, uma mesma categoria tinha agora dois tempos diferentes a considerar?

Por esse e por outros problemas, uma roda de competidores logo se formou em torno ao Diretor de Prova, que a essa hora bem preferia estar com sua sogra que em meio a semelhante tumulto.

Um grupo vinha e apresentava seus argumentos para cancelar esse ou aquele PC. Quando o Diretor de Prova estava para acatar seus motivos, um outro grupo logo se formava para insurgir-se contra a decisão. E assim fomos noite adentro, até que alguém se encheu - provavelmente e muito justamente o dono do restaurante, já que àquela hora ninguém mais consumia nada, só brigava.

Foi dada então a situação estabelecida naquele momento como líquida e certa. E quem não gostasse que fosse reclamar ao Bispo. E nós gostamos! Com 70 pontos perdidos, fomos agraciados com um inesperado, mas merecido 1o. lugar!

Assim, depois de rirmos muito e sofrermos bastante nessa longa prova, chego à seguinte conclusão: entrosamento de equipe, team-working e cordialidade realmente não valem nada! O que vale é garra, gatos e geléia, não necessariamente nessa mesma ordem.

Aliás, devo aqui registrar que minha vitória foi inteiramente dedicada ao gato, ainda que postumamente. Onde ele estiver nesse momento, sei que estará saboreando conosco essa vitória, ou pelo menos a geléia.

Parece que houve alguma complicação na hora de desinstalar o gato do jipe. E segundo apurou-se, a laje da garagem não deve ser usada nessa operação.

No mais, o jipe de fato não capotou.

Abraços no tempo,

Decio Pedroso

decioapn@terra.com.br

 

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