Raid da Mantiqueira
>por Decio
Pedroso
Depois de muito tempo afastado, não só do teclado
mas também do mundo da lama - ou do "Planeta Off-Road",
estou de volta. E volto também para contar sobre minha
volta aos raids, embora não muito heróica, como
se verá.
Escolhi para essa ocasião o Raid da Mantiqueira, que
ocorreria junto com o Rally da Mantiqueira. A largada promocional
seria em Caçapava na sexta-feira à noite, seguido
de um deslocamento até Campos do Jordão, onde
seria a largada na manhã seguinte. O percurso terminaria
em São Lourenço-MG. Eu, que sou um apaixonado
pela região, me encantei com esse raid assim que ouvi
falar dele pela primeira vez. Naturalmente, a vítima
escolhida para Navegador não poderia ser outro se não
o valente Maurício Lima. Iam participar também
o já famoso casal Vernizi, campeões da Copa Vale
de 2000.
Conforme combinado, saímos de casa às 18h30 de
uma sexta-feira. Seguimos bem pela Ayrton Senna e pegamos a
Dutra pouco antes de São José dos Campos. Mal
caíamos na Dutra e baldes caíram sobre nós.
Chovia como só na véspera de um raid costuma chover.
E a Dutra parou. E continuou parada por mais de uma hora e meia.
Depois de colocar todos os assuntos em dia, falar (mal) de todos
os Service Pack da Microsoft, vantagens e problemas de cada
um, contar os pingos no pára-brisas, etc, finalmente
não tínhamos mais nada a falar.
O trânsito então começou a andar e cada
um de nós voltou a se animar. Dez quilômetros à
frente e comecei a achar que estava com sono. Já parecia
não enxergar muito bem. As luzes me ofuscavam e a visão
parecia se embaçar. Ia encostar para passar o volante
a meu valente navegador quando percebi que o ar-condicionado
surtara. Todos os vidros estavam embaçados. Rapidamente
abrimos os vidros e quebra-ventos. Minha latinha de Coca, que
vinha pendurada no quebra-vento, caiu. Não dei importância
pois voltava a ver o Retão de Jacareí.
Chegamos finalmente à Caçapava bem a tempo de
ver o comboio se mandando em direção à
Campos do Jordão. Paramos no posto de encontro, pegamos
os organizadores a laço e completamos nossa inscrição.
Partimos então para Campos, ainda com todas as janelas
abertas pois o ar-condicionado continuava parado. Quem tem Toyota
com guincho mecânico sabe o que é pegar uma estrada
com as janelas abertas. O buraco para a passagem da alavanca
da tomada de força, que fica bem ao lado acelerador,
aponta diretamente para seu tornozelo direito. Quando a janela
está aberta, boa parte do ar quente que vem do radiador
é sugada pelo buraco da alavanca do guincho, sobe por
dentro da perna direita de sua calça, aquece-lhe os culhões,
o umbigo e só vai sair pela manga esquerda da camisa,
cujo cotovelo, naturalmente encontra-se do lado de fora do possante
veículo. É como uma estufa portátil, com
a vantagem de não precisar do telhado de vidro. Eu já
suava em bicas, quando a Band apontou serra acima. Com o aumento
do esforço, embora a temperatura interna do motor permanecesse
nos habituais 90o C, com o aumento da energia dissipada, a temperatura
do meu tornozelo elevava-se a níveis perigosíssimos.
Já pelo meio da serra, percebi que meus pés começavam
a grudar no tapete de borracha. Inicialmente era só um
tchec-tchec que só percebia ao movimentar o pé
do assoalho para a embreagem e vice-versa. Depois a aderência
foi se tornando progressivamente mais sensível até
chegar a tornar-se realmente incômoda. Jã não
aguentando mais o desconforto do calor e daquele novo fenômeno,
resolvi compartilhar com o Maurício as minhas apreensões:
- Cara, acho que isso ta tão quente que até o
tapete amoleceu. Ta grudando no meu pé!
- Que isso, meu! - o Maurício também é
paulista - Vê aí a temperatura do motor.
Como a temperatura do motor estava mais firme que pára-choque
de Toyota, não demos maior atenção ao problema.
Mas eu parecia pisar num mar de chiclete.
Quando finalmente encostamos em frente à Pousada, parecia
que tinha velcro nos pés. Desci para tomar diversas providências
enquanto um curioso Maurício projetou-se pelo interior
da Band pelo lado do motorista e saiu de lá triunfante:
- Que tapete derretendo, que nada! Foi a P... da sua Coca-Cola
que caiu no chão e melou tudo!!!!!
Tive que ir dormir com essa...
No dia seguinte acordamos com uma sinfonia de alarmes de relógio,
telefones celulares e um tio derrubando a porta para nos acordar
- tudo devidamente programado para que não perdêssemos
a hora do raid.
Abro a janela e ao olhar para baixo, deparo-me com um amontoado
de peças, bagagens e carro que, pelas enormes faixas
azuis, logo deduzi ser de nosso amigo Fábio Parmesão
Vernizi. Rapidamente tomamos um excelente café da manhã
e mandamo-nos para o ponto de largada. Não sem antes
as conhecidas e manjadas perdidas, paradas para indagar o caminho
correto, novos erros, novas paradas etc. Após pegar adesivos
e planilhas, enquanto nossos navegadores dedicavam-se à
sua arte, eu e o Fábio passamos a fazer o que de melhor
sabemos: jogar conversa fora.
No momento da largada, alinhamos nossas viaturas enquanto começamos
a assistir a partida dos demais, começando pelos carros
(as motos já haviam partido há muito). Eles seguiam
sem capacete mas não demos maior atenção
- leigos que somos no mundo do rally de regularidade. Mas quando
vimos os primeiros jipes partindo, com sua tripulação
também sem capacetes, aliás sem nem mesmo cintos
de segurança, percebemos que algo de muito estranho estava
por ocorrer. Ainda embasbacados com o que via, um jipe emparelhou
conosco e, diante dos gestos enfáticos que faziam, abri
meu vidro para melhor ouvi-los:
- Podem tirar os capacetes. Aqui não se usa isso, não!
Não? Nós usaríamos!
Os mesmos dedicados jipeiros fizeram o mesmo ao lado do Parmesão,
que também não se deu por vencido, mantendo seus
capacetes intocados. Até por que contavam com os excelentes
intercomunicadores, produzidos por nosso amigo da JipeNet -
Donatti www.acessorios4x4.com.br - com quem tive o prazer de
passar outro raid quebrado (mas isso já é outra
história...).
Largamos!
A prova não trazia maiores dificuldades, nem de navegação,
nem de pilotagem, já que seguia por estradas de terra
bastante boas para rodarmos com o mais urbano de nossos carros.
As médias também eram para lá de razoáveis.
Foi bom para desenferrujar...
A paisagem, no entanto, era digna de nota.
Íamos seguindo cada curva do caminho, quando as coisas
começaram a acontecer: primeiro passamos um carro da
categoria rally. Coitado, mais perdido que cego em tiroteio.
Em seguida, um caminhão manobrando interpôs-se
entre nós e o resto do mundo, depois um Fusca velho,
uma vaca, uma Kombi, outra vaca e então os deuses se
superaram: uma vaca seguida de perto por um Fusca velho. E os
dois lá, a quase 3 km/h, estressadíssimos tirando
tempo... Faziam assim: o Fusca vinha por um lado para ultrapassar
a vaca. A vaca, que tinha numeral mais baixo (era vaca mas não
era besta) jogava o rabo para um lado e virava para o outro,
trancando a frente do Fusca. O Fusca tentava então do
outro lado e tudo se repetia. E nós ali, calmamente assistindo
aquele espetáculo de tenacidade, competição
e adrenalina que só o interior do País e eventualmente
o Rubinho Barrichello podem nos propiciar. Enquanto isso, luzes
verdes se acendiam no painel do meu Totem e nosso tempo ia crescendo
a olhos vistos.
Eis que, para nossa sorte, um neutral imprevisto apareceu na
planilha da vaca e ela teve que encostar. Logo após,
o Fusca fez o mesmo e pudemos seguir competindo, sem que a vida
de nenhum pai de família tivesse que pesar sobre aquela
vistosa tripulação. Rapidamente recuperamos o
tempo perdido naquele espetáculo germano-ruminante e
pudemos passar por mais um PC zerados.
Íamos assim, nos dando bem apesar das agruras dos obstáculos
do caminho. Preparávamos agora para a última etapa.
Apenas 40 minutos mais de prova nos restavam. Foi quando
senti o motor da Band fraquejar em alta, nas esticadas de marcha.
Alertei o Maurício que algo não ia bem, enquanto
ele fazia dois ou três elogios à minha família
por cada segundo perdido. A coisa já então ia
feia: mesmo nas rotações intermediárias
o motor perdia força e falhava. Quando a situação
já estava insustentável, e toda a minha ascendência
já estava presente na viatura pela boca de meu dedicado
e circunspeto navegador, encontrei um lugar para encostar e
ataquei o capô.
Arranquei a tampa do filtro de ar - como um cirurgião
cardíaco frente a um enfarte do miocárdio - certo
de que algo obstruía o sorvedor de ar do valente. Retirei
de suas entranhas galhos, folhas, cuecas e até um funkeiro,
que lá se alojara na última passada nossa pelo
Rio. Arremessamos então a tampa do cofre contra o seu
batente e lançamo-nos para nossos postos. Dei partida
e o motor rugiu forte. O Totem, a essa altura já marcava
mais de seis minutos de atraso. Nada que não pudesse
ser recuperado. Engatei pela primeira vez o 4x4 naquele dia
e partimos em disparada pela estrada a fora, arrastando os BF
nas curvas. A buzina e o coração disparados.
Encontramos um PC ainda com mais de 5 minutos de atraso, nem
paramos para pegar boleto. Cobrimos-lhe de poeira e isso foi
tudo. Poucas curvas depois, o motor tossiu e faleceu. Assim
como a última de nossas esperanças. Junto com
ela, passaram os cinco últimos carros, batidinhos a meio
minuto de distância cada um, tal qual na largada. Lá
se ia uma bela prova pelo bueiro. Ou melhor, pelo filtro. O
problema então não era no filtro de ar, mas no
de combustível. E só quem bem conhece o interior
do cofre de uma Band com motor 14-B sabe a peça que o
destino nos pregava. Para soltar o maldito filtro, a única
ferramenta que consigo imaginar, seria uma chave em W, com bocas
em todas as extremidades e autopropelida, pois não há
como caber ali a sua mão para manipula-la. Que coisa!
Passaram por nós cavaleiros, meninos, peões, bicicletas,
araras-azuis, micos-leão-dourados, unicórnios,
fadas, demônios e lagartos. E nada de daquele maldito
filtro se soltar. E então o melhor: um Niva se aproxima
lentamente e pára, como só um limpa-trilha ousaria
fazer. Sem descer da potente viatura, três Barbados rapidamente
nos perguntaram o que havia. Mal terminávamos de falar
sobre o problema no filtro e o Niva acelerava:
- Então está tudo certo, né? Se precisarem
de alguma coisa, é só chamar!
Chamar? Lá se ia nosso limpa-trilha, incumbido de sua
tarefa de chegar ao fim o quanto antes.
Bom, só nos restava agora conseguir limpar o filtro e
colocar a Band para rodar. Livramos a maldita peça, tentamos
por tudo que nos era possível limpa-la, montávamos
novamente e nada de funcionar. Com o passar do tempo, lembrei
de ligar para o Fábio que, tendo largado antes, já
devia estar há tempos a nossa espera. Infelizmente nosso
celular estava fora de área e não logramos êxito.
Por outro lado, também não podíamos deixar
o PX ligado por causa da valiosa bateria, cuja carga ia se esgotando
rapidamente a cada partida do pesado motor diesel.
Finalmente, após desistirmos do filtro (e ele de nós),
resolvemos aplicar-lhe um by-pass. Mangueira de um no cano do
outro e lá se foi aquele maravilhoso diesel para dentro
da bomba injetora, fazendo roncar forte o motor da Band. Só
Deus sabe que tipo de impurezas e melecas aquela operação
levou para dentro de meu motor. De qualquer forma, 30 minutos
mais tarde já nos encontrávamos no Hotel Metropolitano
em São Lourenço. Sujos mas felizes por não
passar a noite na estrada.
Imediatamente fomos procurar o Fábio e a Andréa,
que deveriam realmente estar preocupados com nosso desaparecimento.
O Fábio demonstrou mesmo uma preocupação
que só um jipeiro sabe ter por outro. De dentro de uma
enorme Jacuzzi, ao lado de uma seqüência interminável
de latinhas de cerveja, ele balbuciou:
- E aí? Chegaram? Vamos entrando!
Comovidos com tanta preocupação, fomos todos jantar
e jogar conversa fora (aquilo que fazíamos de melhor).
No dia seguinte, a apuração. Quando noticiaram
que sete dos dezesseis PCs seriam cancelados, uma luz de esperança
novamente se nos iluminou. Afinal de contas, havíamos
perdido apenas 3 PCs com nossa pane. Pena que, como se sabe,
esperança de pobre dura pouco. Apenas um dos sete PCs
cancelado pertencia ao grupo daqueles que havíamos perdido.
Os outros seis eram aqueles em que passáramos quase zerados.
O Fábio e a Andréa pegaram um (inusitado para
a performance do casal) quarto lugar, atrapalhados que foram
por uma motoniveladora que resolveu fazer uma rápida
manutenção na pista bem à sua frente.
Voltamos para São Paulo certos de que o passeio tinha
valido. Das poucas vezes que pude levantar os olhos do painel
e da estrada, pude divisar uma paisagem que só o Sul
de Minas pode proporcionar. O trajeto, saindo de Campos do Jordão
e indo "dar" em São Lourenço (no sentido
familiar, é claro) é dos mais felizes e vale a
pena ser revisitado.
Então ficamos assim: corremos como nunca, perdemos como
sempre. Mas o que fica é o prazer, não é
mesmo?
Abraços 4x4,
Decio Pedroso
decioapn@terra.com.br
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